Brasil: um país que não aprende nunca

Durante décadas o Brasil perseguiu uma política conhecida como “substituição de importações”. Consistia em criar um setor manufatureiro por meio da proteção das empresas brasileiras contra as importações via barreiras e subsídios.

O resultado foi a criação de um setor manufatureiro ineficiente, que produziam bens caros e de baixa qualidade — basta lembrar da indústria de computadores gerada nos anos 1970.

Parecia que havíamos deixado de lado estas práticas nos anos 1990.  A surpresa é a volta destas ideias agora com o Ministro Paulo Guedes, que diz querer reindustrializar o Brasil. 

Mas, agora a “política industrial” tem roupagem nova. A proteção e os incentivos não é mais via tarifas e subsídios. Agora tudo vem com uma taxa de câmbio elevada, propiciada com uma política de juros baixa. Em outras palavras, o Banco Central (BC) virou “Ministério da Industrialização”.  

É claro que esta política gera riscos de inflação (os efeitos do coronavírus podem postergar essa pressão inflacionária, mas não é nosso objetivo discutir este ponto aqui). Vamos analisar algumas outras consequências desta política de câmbio elevado.

Claro que se elevarmos o câmbio o suficiente,  até computadores produzidos no Brasil (sonho antigo de alguns economistas brasileiros dos anos 1970) podem ser exportados para a China. Em outras palavras, se elevamos o câmbio o suficiente cobrimos os custos e as ineficiências do Brasil, fazendo com que empresas brasileiras sejam competitivas e possam exportar. Mas, quem está pagando esta conta?

Quem paga essa conta?

É o setor não exportador que está pagando a conta. É a grande massa de brasileiros que trabalham em setores que produzem bens que não são exportáveis. Antes isso era feito com tarifas e subsídios, agora é com alteração dos preços relativos, via câmbio elevado. A forte elevação do câmbio, induzida por uma política de juros baixos, provoca uma grande distribuição de renda dos setores não exportadores para o setor exportador. 

Mas, um setor exportador lucrativo é garantia de expansão e investimentos? Primeiro, se a lucratividade é garantida pela combinação juros baixos/câmbio elevado, o risco para as empresas exportadoras investirem está colocado. Por exemplo, se a inflação subir, então, o BC tem que elevar os juros o suficiente para conter a inflação, levando a queda do câmbio. 

Em outras palavras, sem que os fundamentos econômicos garantam vantagens competitivas para os exportadores, mudanças geradas de forma transitória pelo governo ou pelo BC, não devem gerar investimentos e expansão dos setores. 

Como acontecia nos anos 1970, empresas vão elevar os preços e podem até produzir mais,  embolsando os lucros, mas ninguém investe em queda de custo ou melhoria de produtos. Uma vez findo os subsídios, findam também a produção e as empresas deles derivadas. 

Além disso, dado o câmbio elevado, o custo investir, de comprar máquinas e equipamentos, também sobem, sejam eles produzidos no Brasil ou importados. Em síntese, a reindustrialização do Ministro Guedes é duvidosa que ocorra. E, se ocorrer, é duvidosa que se mantenha.

Consequências

Olhemos agora o setor não exportador. Se os preços dos insumos sobem devido ao câmbio, a tentativa é repassar estes aumentos para os preços. Se os preços aumentam, a inflação sobe e o BC tem que atuar, elevando os juros , reduzindo o câmbio e acabando com a vantagem do setor exportador. Neste caso, o BC apenas gerou maior volatilidade cambial! Mais Risco!!!

Imaginemos que devido a condições de demanda, esses repasses não sejam possíveis. Isso implica num setor não exportador com custo maior e com lucratividade menor. Esta lucratividade menor vai determinar se esta empresa encolhe, quebra ou vai para informalidade. Implica também em investimento menor porque o custo de investir se torna maior também. 

Para a grande massa de trabalhadores dos setores não exportadores, o resultado é perda de renda via queda de salários (assim como ocorreu nos anos 1970). Mais uma vez, o sonho de uma equipe econômica de industrializar o país vai ser pago pelos milhões de brasileiros de baixa renda. Mais uma vez, deve gerar instabilidade e ineficiência.

É estranho que uma equipe econômica que dizia querer acabar com os privilégios pagos pelos 200 milhões de patos venha agora reinventá-los. 

Se a equipe econômica quer gerar crescimento do setor exportador, o caminho são as reformas que reduzam o custo Brasil, que é inflado por uma legislação tributária caótica, insegurança jurídica, más regulações e péssima infraestrutura. Além disso, é preciso estabilidade e previsibilidade, e melhorar o capital humano para que haja mão de obra mais bem preparadas para o mercado de trabalho atual. 

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