Ufes sem aulas: quem paga a conta?

Ufes sem aulas

Com a pandemia do novo coronavírus, as aulas presenciais de todo o país foram suspensas. Porém, a tecnologia e o ensino a distância são ferramentas utilizadas para que os estudantes sejam menos prejudicados. Afinal, eles podem continuar com seus estudos e não sofrerem o risco de perda de semestre letivo. Dessa forma, mesmo instituições de ensino que não atuam em ensino a distância (EAD) a implementaram. Há vários casos de faculdades no Espírito Santo, por exemplo, que inclusive compraram materiais necessários para os professores e criaram sistemas para os alunos continuarem com suas atividades o mais dentro possível da normalidade.

Há alunos que não tinham todos os insumos necessários em casa, como uma boa conexão com a internet. Nessas circunstâncias, houve instituições que separaram espaços e salas de aulas isoladas para esses alunos frequentarem as aula. Em algumas instituições está sendo oferecido até mesmo auxílio psicológico para os alunos.

Apesar dos esforços das instituições privadas para manter o cronograma de aulas, 60% das universidades federais estão sem aulas, incluindo a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Embora apresente algumas atividades e cursos extras online, a universidade não aderiu ao ensino remoto como forma da substituição das aulas presenciais. A justificativa é que “nem todos os alunos teriam recursos suficientes para acessar os conteúdos”, como se não houvesse alternativas para lidar com o problema. 

Quem paga essa conta?

A Ufes possui cerca de 20.500 estudantes matriculados em graduações e 4 mil alunos que cursam a pós-graduação. Na prática, a formação de todos eles está suspensa desde meados de março.

Devido a inexistência de programas para suprir as aulas presenciais, há prejuízos do ponto de vista financeiro. As despesas previstas para o ano de 2020 na Ufes superam o valor de R$ 1 bilhão, sendo maior do que 76 municípios capixabas: são quase 40 mil reais por ano investidos por cada aluno, e que estão sendo desperdiçados nesse período sem aulas.

Como mais de 80% do orçamento da universidade capixaba é direcionado ao pagamento de funcionários da ativa e aposentados, a sociedade está sendo obrigada a arcar com a maior parte desse valor mesmo que nenhuma aula seja lecionada no período de quarentena.

Se o serviço já está sendo pago, por que não desenvolver formas de ensino que impeçam alunos de perderem o semestre, tal como diversas faculdades privadas fizeram no Espírito Santo?

O privilégio da educação superior

Há outro ponto que a agrava a situação: a presença nas universidades públicas é diretamente relacionada à renda. Ou seja, quanto maior os rendimentos, maior a chance de ingresso. Não à toa, 46% dos alunos das universidades públicas federais pertencem às famílias com maior renda do país. Enquanto isso, somente 8% vem das famílias mais pobres.

Os dados são de estudo do Instituto Mercado Popular, usando como base a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE de 2013. Segundo o levantamento, a probabilidade estimada de um jovem com renda familiar per capita de R$250 ao mês ingressar na universidade pública é virtualmente nula: cerca de 2%.

Ou seja: todos pagam pelas universidades públicas, mas apenas alguns, especialmente os brasileiros de maior renda, são beneficiados por elas. Os mais pobres são os mais prejudicados, portanto.

Enquanto o rendimento médio no Espírito Santo é de R$ 1.476,55, segundo o IBGE, a média salarial na Ufes é de R$ 13.140. Em resumo, o capixaba médio não apenas continua financiando a educação de estudantes de classe mais alta, como também o salário de funcionários nove vezes superiores aos seus. Só que dessa vez sem ninguém estudar.

Alternativas à Ufes sem aulas presenciais

Enquanto os alunos da Ufes estão com risco de perder o semestre, apesar dos pagadores de impostos continuarem pagando os custos da universidade, as instituições privadas do estado estão mantendo suas aulas pela EAD.

Afinal, os incentivos de mercado presentes nas instituições privadas estão ausentes nas universidades públicas. Em contrapartida, atualmente, 4.100 capixabas estudam em 39 faculdades particulares do estado por meio do Nossa Bolsa, e sem risco de perda do semestre. O custo anual do programa para os cofres públicos estaduais é de R$ 29 milhões, e os estudantes beneficiários por esta política pública são mais vulneráveis socialmente, com renda per capita familiar inferior a 1,5 salário mínimo.

A Ufes deveria aderir ao EAD para não deixar os alunos sem aulas. Com a incerteza de quando poderemos voltar às atividades normais, os tomadores de decisão precisam avaliar as saídas necessárias para esse impasse o quanto antes, sob pena de prejudicar os alunos e onerar ainda mais a sociedade.

1 comentário em “Ufes sem aulas: quem paga a conta?

  1. Avatar
    Thomazini Responder

    Enquanto existir cavalo, São Jorge não anda a pé. A direção é esquerdista, logo o interesse e outro.
    Não deixar fazer os que querem fazer.
    Universidade pública tem que ter compartilhamento para os bem posicionados financeiramente.

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