Quando teremos renovação na Fecomércio?

Fecomércio

Na obra “Quem está no comando?”, os empreendedores Rod A. Beckstrom e Ori Brafman desenvolvem a metáfora da estrela-do-mar e da aranha para explicar como organizações com diferentes modelos de liderança prosperam ou não. 

Os autores demonstram que em algumas espécies de estrelas-do-mar, mesmo quando se retira um “braço” do organismo, não apenas o indivíduo original é capaz de regenerar o membro perdido, como também o membro amputado se transforma em outra estrela-do-mar. Isso é análogo à empresas que operam de forma descentralizada, nas quais diferentes especialistas podem contribuir livremente, gerando resultados positivos dentro dos propósitos da organização. São as “organizações estrela-do-mar”, o modelo de sucesso das empresas do século XXI.

Por outro lado, as aranhas são organismos que dependem da cabeça para sobreviver. Caso ela seja retirada, a aranha morre, ou seja, um membro amputado não é capaz de gerar outro indivíduo. As “organizações aranha” representam aquelas centralizadas na liderança, que não se multiplicam e são dependentes de uma figura principal, algo ultrapassado e típico dos séculos passados.

O artigo da coluna “Painel S.A.” do dia 23 de maio último, ao por luz sobre a renovação nas entidades industriais, indiretamente acabou por destacar que duas organizações no Espírito Santo parecem se comportar de forma semelhante às teorizadas por Beckstrom e Brafman: a Findes e a Fecomércio. 

Findes, a organização capixaba do tipo “estrela-do-mar”:

Depois de um início de século difícil, alguns acontecimentos recentes demonstram como a Federação das Indústrias do Espírito Santo é uma “organização estrela do mar”. Destacada na mídia nacional a partir da coluna “Painel S.A.”, a Findes foi elogiada por ter retirado, em 2019, do seu estatuto a possibilidade de reeleição na presidência da organização, garantindo constante renovação e oxigenação da organização. Além disso, foi eleita pela primeira vez nos 61 anos de história uma presidente mulher.

A gestão atual, que se encaminha para o encerramento, promoveu uma ruptura histórica na Findes. Deu-se mais foco à modernização e transformação do sistema industrial que ao âmbito político. Entre os destaques da gestão está a criação do FINDESLAB, um “hub” de inovação da indústria capixaba.

Já a presidente eleita, reforçou diversas vezes ao longo da campanha que pretende dar continuidade à essa agenda de transformação. O foco será em inovação, produtividade e entrega de resultados.

Isso evidencia que o processo de transformação da Findes não depende de um líder central. Pelo contrário, a gestão foi capaz de oxigenar novas lideranças que garantirão a prosperidade da organização. 

Fecomércio, a “organização aranha” capixaba:

Em contrapartida, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-ES) se aproxima mais do tipo “aranha“. Afinal, desde 1968, a Federacão teve apenas três presidentes diferentes. Um deles ficou por cinco mandatos no cargo e o outro ficou em oito mandatos. O atual presidente parece seguir essa mesma linha: estando desde 2006 no cargo, em seu quarto mandato, que encerra apenas em 2022.

É dizer, há 14 anos não há renovação na presidência, o que, necessariamente, traz limitações prejudiciais à atuação da entidade. Essas limitações decorrem da simples ausência de oxigenação e alteridade ou porque, ao invés de exercer o cargo representativo como um adendo da vida profissional, a função passa a ser a principal entrega da vida da pessoa, prejudicando a qualidade da representação dos empresários do setor de comércio e serviços.

Na atual crise sanitária causada pelo coronavírus, nas primeiras sete semanas de pandemia o comércio do ES registrou um prejuízo de R$ 3 bilhões, sendo passageiro passivo das incertezas e volatilidades que o ambiente impunha.

E é justamente em crises que as virtudes ou equívocos ficam mais evidentes. Nelas lideranças são demandadas: algumas se destacam positivamente ao colocarem em prática seus valores e princípios; outras se revelam incapazes de prestar um bom serviço para aqueles que deveriam representar. 

Afinal, quando a sociedade capixaba verá uma grande renovação acontecendo na Fecomércio, que a possibilite deixar o ultrapassado “modelo aranha” para entrar no século XXI?

Texto escrito juntamente com Hélio João Pepe de Moraes, que é advogado.

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