Carta do economista: estabilização da pandemia e reabertura das cidades

Reabertura das cidades e estabilização da pandemia

O mês de maio foi uma repetição do cenário vivido em abril, com a atenção dos governos voltada ao combate à pandemia e seus efeitos sobre a economia. O lado positivo foi a queda de novos casos na Europa, o que levou vários países a iniciarem o processo de reabertura de suas cidades. Assim como, também já ocorre em alguns estados dos USA.

Já no Brasil, em relação à pandemia, houve aumento de novos casos da doença e do número de mortes. Hoje, o país ocupa o segundo lugar geral em quantidade de infectados. Por esse motivo, não há previsão para a reabertura das cidades.

Mercado externo

As políticas fiscais e monetárias foram mantidas, entretanto, segundo dados liberados, as maiores economias do mundo estão em forte recessão, com atividade econômica baixa ou ainda em queda.

China, União Europeia e Estados Unidos estão em momentos distintos do combate à pandemia. Enquanto a economia chinesa já demonstra recuperação, os países europeus ainda apresentam a primeira redução nos registros de novos casos de COVID-19.

Dessa forma, vários países como Itália, Espanha, França e Alemanha, iniciaram a reabertura das cidades e da atividade econômica.

Por outro lado, a estabilização da pandemia nos Estados Unidos percebida ao fim de maio é apenas uma tendência de queda. Uma vez que, o surto da doença não aconteceu de forma igual entre os estados, medidas distintas estão sendo implementadas em relação à retomada das atividades econômicas.

Alguns iniciaram a reabertura de suas cidades e outros mantém o lockdown. No entanto, o Gráfico I expõe, em geral, uma expansão dos casos no mundo: 

Durante o mês de maio, o aumento do número de casos nos Estados Unidos, no Brasil e na Rússia compensaram a redução presenciada em outros territórios. Contudo, o total diário de novos casos, de fato, estabilizou-se neste mês, como apresenta o Gráfico II:

O Banco Central Americano (Fed) manteve a agressiva compra de títulos públicos e privados para manter a liquidez e expandir o crédito. Porém, em maio, foi aberta outra linha de crédito para as médias empresas americanas no valor de US$600 bilhões.

Como mostra o Gráfico III, somente em 2020, os programas de compras de ativos quase duplicou o montante em posse do Fed, mostrando uma política de compras bem mais agressiva do que na crise de 2008.

Embora menos agressivos em relação às compras, os Bancos Centrais europeu e do Japão também implementaram políticas similares.

Ao lado da política fiscal, um pacote de aproximadamente $ 2.7 trilhões do governo norte-americano está sendo usado para socorrer empresas e famílias no país. Além disso, o Secretário do Tesouro dos EUA afirmou que novas intervenções serão feitas, caso necessário.

PIB dos demais países

Dentre as economias, as três maiores já liberaram os dados sobre os respectivos desempenhos  do PIB no primeiro trimestre de 2020. No geral, todas sofreram forte retração.

Na China, o PIB caiu 6.8%, nos EUA caiu 5% e na União Europeia caiu 3.8%. Além disso, Alemanha e Reino Unido também confirmaram queda do PIB neste período de 1.9% e 1.6%, respectivamente.

Em maio, todos os índices de gerentes de compras e vendas do varejo, bem como referentes à destruição do emprego confirmam essa tendência de queda. Ou seja,  a recessão deve ser maior do que a indicada pelos dados do primeiro trimestre deste ano.

Segundo o FMI, o crescimento mundial esperado para este ano é de -3%. Mas, o impacto será diferente entre as regiões. O PIB das nações desenvolvidas deve cair 6%. Mas, a Zona do Euro deve sofrer mais do que o Reino Unido e os EUA.

Além disso, a presidente do Banco Central Europeu alertou para o fato de que a queda do PIB dos países que compõem o bloco deve ser maior do que o estimado até o momento: entre 8% e 12%.

Por outro lado, o PIB dos países emergentes deve cair cerca de 1%. Enquanto China e Índia ainda vão ter crescimento positivo de 1.2% e 1.9%, respectivamente, Brasil, México e Rússia sofrerão queda em torno de 5%.

A despeito da recuperação dos preços dos ativos desde abril, é possível que a volatilidade volte a aumentar, gerando novas quedas. Primeiro, porque a reabertura das cidades e das empresas podem ser frustradas com o recrudescimento da pandemia. Neste caso, um novo fechamento da economia vai intensificar a queda do PIB.

Mercado interno

Em relação ao cenário econômico, houve dois momentos distintos. Na primeira metade de maio, a tensão política era elevada devido a conflitos entre diferentes agentes, assim como as investigações sobre a tentativa de intervenção na Polícia Federal.

Já na segunda quinzena, Bolsonaro se reaproximou do Congresso e dos governadores. Ao mesmo tempo, a liberação do vídeo pelo Supremo Tribunal Federal (STF) reduziu consideravelmente a possibilidade de uma denúncia contra o presidente.

Isto é, diferente do que acontecia a nível mundial, no Brasil, o mercado doméstico perdeu a tendência a valorização e o dólar aumenta forte em um primeiro momento e, depois, o mercado financeiro recupera a tendência de valorização e o dólar cai.

Segundo o Boletim Focus, as expectativas tanto à inflação quanto ao crescimento caíram bastante em maio: 1.57% e de crescimento de -5.89%, respectivamente. Também foram apontadas novas reduções da Selic, cuja expectativa para o fim de 2020 é de 2.25%. 

Ao fim do mês, os dados divulgados pelo IBGE confirmaram estas expectativas do mercado. O PIB caiu 0.3% na comparação anual e 1.5% em relação ao trimestre imediatamente anterior.

Durante o mês de maio, a política fiscal em auxílio ao setor privado foi mantida. Enquanto os governos estaduais não propuseram novas medidas, o Ministro da Economia levantou a possibilidade de estender o “coronavaucher” às famílias.

Além disso, o Congresso aprovou o PL 149-B, que transfere recursos e posterga as dívidas dos estados com a União. O intuito é fornecer recursos aos entes federativos para o combate à pandemia. 

Política monetária no Brasil

O Banco Central brasileiro atuou para manter o aumento da liquidez e do crédito. Neste sentido, nova redução de 0.75% na Selic foi feita na reunião do Copom, nos dias 5 e 6 de maio. 

Entretanto, dada a estrutura altamente concentrada do setor bancário no Brasil, esta política tem impacto limitado. Por exemplo, uma linha de crédito para financiar a folha de pagamentos de empresas, cujas receitas vão até R$ 10 milhões tinha apenas 1% dos recursos disponíveis.

Um dos efeitos colaterais destas políticas monetárias do BCB têm sido aumentar a depreciação do real frente às moedas dos países ricos. Não à toa, quando a instabilidade interna aumentou, o dólar chegou próximo de R$ 6. Ou seja, nossa moeda chegou a perder quase 50% de seu valor frente à norte-americana.

Em suma, a crise política agravaram esse processo. De acordo com os Gráficos IV e V, as três reduções da Selic em 2020, junto à elevação do risco Brasil, mostram uma desvalorização do real muito maior, do que dos pesos chilenos e colombianos.

Finalmente, novas redução da selic em 2020 podem trazer mais volatilidade cambial e/ou novas desvalorizações da moeda. Em particular, se a instabilidade e as disputas políticas voltarem a dominar o cenário no Brasil.

Isto é, os cenários de enfraquecimento permanente do governo Bolsonaro a ponto de perder o controle fiscal, como aconteceu em 2015, ou de iniciativa em prol das reformas, semelhantes ao governo Temer, têm baixa possibilidade de ocorrer no momento.

Há possibilidade também de crises fiscais nos estados, devido à quarentena. Afinal, junto à diminuição da arrecadação de impostos, está o fato de que os governos continuam pagando salário integral ao funcionalismo público  – ativos e inativos. Ou seja, em breve, muitos destes governos podem não ter caixa para arcar com seus compromissos, mesmo após a reabertura das cidades.

 Renda fixa nos Estados Unidos

Desde o início da pandemia, o retorno dos títulos públicos americanos estavam em queda até que passou o pânico dos mercados financeiros.

Esta estabilização, representada no Gráfico VI, sinaliza, primeiro, que a demanda por proteção no início da crise era alta. Em segundo lugar, que a compra de títulos públicos pelo Fed tem conseguido manter os preços dos títulos em alta e os retornos baixos.

Visto que a instabilidade nos mercados mundiais foi reduzida e a tendência de valorização dos ativos foi retomada, sendo mantida desde março, a estabilização dos retornos em patamares baixos, deve ser fruto da política do Banco Central americano. 

À medida que os impactos da pandemia forem sendo precificados, haverá queda ainda maior da incerteza, o que, consequentemente reduzirá a demanda privada por títulos do tesouro americano. Mas, enquanto não há sinal do fim da compra de títulos, estes retornos devem continuar baixos.

Quando o Fed reduzir suas compras, mantidos os níveis de incerteza atuais quanto ao controle sobre o Coronavírus, os preços farão o caminho inverso. Consequentemente, os retornos devem aumentar. Mas, ainda há possibilidade de que este ajuste seja interrompido. 

Outro fator que pode aumentar a demanda privada por proteção são as tensões geradas com as disputas comerciais entre americanos e chineses. Embora o mercado não tenha dado importância até o momento, estas disputas podem escalar, prejudicando o comércio e a economia mundial.

Renda fixa no Brasil

Como mostra o Gráfico VII,  durante abril, os títulos públicos brasileiros reduzem os retornos pagos.

Porém, no início maio, a instabilidade interna volta a aumentar devido às disputas políticas e investigações. Assim, os retornos dos títulos públicos voltam a subir, devido à queda de preços até a segunda quinzena do mês. 

Caso a reaproximação com o Congresso possibilite o avanço das reformas ainda em 2020 – considerando um cenário em que os fundamentos econômicos não piorem de forma permanente -, ao fim desta crise, a economia brasileira deve voltar a crescer. Nesse sentido, os preços dos títulos devem aumentar: cenário favorável a investidores com maior apetite ao risco.

Porém, caso a recuperação da economia e o crescimento sejam muito lento: os preços dos títulos públicos devem continuar em queda e os retornos em alta.

Renda variável nos Estados Unidos

Como mostra o Gráfico VIII,  alguns dos principais índices de mercado de ações mantiveram suas valorizações.

Em particular, o NASDAQ passou a ter retorno positivo, embora ainda com perdas. Assim como, o S&P 500 manteve tendência de recuperação, o que pode acarretar a eliminação de suas perdas em breve.

Alguns fatores contribuíram para este cenário: os dados de que as medidas de isolamento social estão gerando resultados positivos, a queda do número de novos infectados e de mortes nos EUA e a reabertura das cidades em alguns países. 

A longevidade e a intensidade da pandemia, bem como os efeitos das políticas fiscais e monetárias vão definir o crescimento em 2020. Mas, a recessão mundial deve retardar maiores valorizações das ações a curto prazo. 

Ou seja, há outras variáveis. Em primeiro lugar, a reabertura das cidades precisar ser revertida e se houver maiores conflitos econômicos entre China e Estados Unidos, maiores danos vão se abater sobre o comércio internacional.

Apesar da recente recuperação dos preços das empresas, uma estratégia “buy and hold” ainda parece apropriada àqueles que podem planejar a longo prazo, mas a seleção deve ser cada vez mais criteriosa, à medida que as perdas do pânico de março são eliminadas.

Renda variável no Brasil

A partir de fins de abril até meados de maio, o Ibovespa se descola dos mercados mundiais. Depois da queda e durante a primeira quinzena de maio, a bolsa perde tendência de valorização, como apresenta o Gráfico IX:

Somente com a melhora do clima político doméstico, o Ibovespa volta a subir rapidamente. Consequentemente, houve redução de parte das perdas acumuladas com o pânico de março.

A crise política tem afetado o ritmo de recuperação do mercado brasileiro, se comparado ao mercado americano. Enquanto o S&P 500 já devolveu a maior parte das perdas de 2020, o Ibovespa ainda acumula perdas em torno de 25%.

No curto prazo, a retomada do crescimento depende das medidas fiscais e monetárias, que minimizarão os efeitos econômicos causados pela quarentena. Mas, a longo prazo, o crescimento depende estritamente das reformas hoje no Congresso.

Caso isso não aconteça, tanto o crescimento quanto a recuperação do valor das empresas devem ser menores, gerando maiores riscos para a estratégia “buy and hold” no Brasil.  

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