O que os capixabas precisam aprender com John Galt

John Galt e a liberdade

Quase 50 outdoors foram espalhados por toda a Grande Vitória questionando “quem é John Galt?” aos capixabas. Em um momento em que, em virtude da pandemia, empreendedores foram obrigados a fechar as portas, a frase contida em A Revolta de Atlas, de Ayn Rand, provoca muitas reflexões e lições sobre liberdade, ainda mais necessárias diante da atual crise.

John Galt, A Revolta de Atlas e a Liberdade

A distopia de mais de 1000 páginas retrata um mundo em que ideias coletivistas foram adotadas em todos os países do globo. Na obra, restou apenas os Estados Unidos como bastião capitalista. Porém, os governantes do país têm planos estatizantes e anti-individualistas e intervenções governamentais gradativamente aumentam. Há maior burocracia e direitos de propriedade são ameaçados a partir de confiscos e tabelamentos de preços cada vez mais frequentes.

Assim, o ambiente de negócios é cada vez mais complexo para se produzir e gerar riqueza. O resultado: crise, caos e recessão. Apesar das dificuldades, empreendedores buscam manter suas atividades e gerar valor para a sociedade a partir da solução de problemas aos consumidores.

Como a situação piora gradativamente, empresários, artistas e cientistas começam a desaparecer.

Afinal, por que empreender em uma região que não valoriza a livre iniciativa, a liberdade econômica e a geração de riqueza?

Por que assumir riscos se boa parte dos lucros em caso de sucesso serão confiscados pelo governo a partir de impostos?

Por que insistir em um sistema em que quem deseja produzir riquezas precisa da autorização de quem, em última análise, não produz nada?

A realidade retratada no livro não destoa tanto do Brasil atual

Embora publicada há mais de seis décadas, a obra de Rand tem valiosas lições. Afinal, é possível observar a relação da mentalidade retratada no livro com o pensamento majoritário na cultura brasileira.

Pesquisa de 2018 do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação mostrou que a maioria dos brasileiros defende a regulação da economia mais pelo Estado do que pelo mercado. Além disso, afirmam que as principais empresas devem pertencer ao Estado, sendo este “o principal agente de redução de desigualdades e de provimento de serviços básicos”.

Dessa forma, há conceitos enraizados na sociedade, como a rejeição ao capital, à inovação, ao sucesso, ao enriquecimento, ao empreendedorismo e à economia de mercado. Como consequência, há a tendência de desprezo a conceitos como produtividade, individualismo e a compreensão de como a prosperidade é possível.

Não à toa, esse caldo cultural ajudou a pavimentar o caminho para um dos piores ambientes de negócio do mundo — 124º lugar no  ranking do Banco Mundial. Também para a ausência de liberdade econômica — 144º lugar no levantamento da Heritage Foundation — e para a 62º colocação no índice global de direitos de propriedade segundo a Property Rights Alliance. Por isso, há maiores obstáculos a empreendedores, gerando menos oportunidades para todos, especialmente para a população mais vulnerável socialmente.

As lições de John Galt aos capixabas

Apesar de ficção, o romance de Rand aborda diversos exemplos próximos a própria realidade enfrentada hoje pelos capixabas, e lhes traz ensinamentos.

No livro, maquinistas se organizam politicamente para aprovar leis contra novas tecnologias a fim de manter seus empregos. Dessa forma, toda a sociedade arca com os custos dos trabalhos obsoletos por serem pouco produtivos. Por analogia, o que dizer dos recentes protestos de cobradores de ônibus nas ruas de Vitória? Apesar de custos e problemas sociais a curto prazo, não se pode negligenciar que eliminar empregos improdutivos aumenta o bem-estar da sociedade como um todo no longo prazo. Por sua vez, proibir avanços tecnológicos geram despesas muito maiores para toda a sociedade.

Para mais, um dos motivos para a Revolta de Atlas é o “Decreto 10.289”, que restringe a liberdade econômica ao, entre outras medidas, controlar o preço dos serviços. O que dizer dos deputados estaduais capixabas que tabelaram as mensalidades das instituições de ensino?

E, enfim, como explicar para os quase 250 mil trabalhadores capixabas que perderam o emprego e para os donos de 1.500 empresas no estado que fecharam as portas nos últimos 2 meses que eles precisarão bancar os reajustes salariais aprovados pela Assembleia Legislativa do Espírito Santo (ALES) para policiais, bombeiros, agentes socioeducativos e outras categorias que conseguiram se impor politicamente?

Perguntar quem é John Galt não é um mero slogan espalhado pelas principais avenidas de Vitória. É um pedido de reflexão desesperado de quem assume riscos para empreender, gerar valor para os consumidores e trazer maior bem-estar para a sociedade. Essas pessoas são obrigadas a trabalhar 150 dias por ano apenas para pagar impostos, lidar com um labirinto burocrático e um ambiente de negócios caótico. Tudo isso é imposto por quem não assume riscos, não gera valor e, invariavelmente, cujas ações reduzem o bem-estar social.

Conceitos atuais apontados na obra

Em seus três volumes, a história se desenvolve apresentando alguns conceitos ao leitor. A autora é pioneira na filosofia do Objetivismo. Ela apresenta os princípios que consistem na ideia do indivíduo como um ‘’ser heroico’’. Este tem a felicidade como propósito moral de vida a partir da conquista produtiva como sua atividade mais nobre e a razão como seu único referencial.

Tal conduta abrange a ideia de que para se obter a felicidade, requer-se integridade moral e respeito à liberdade e ao próximo. A ideia de que um ser humano deve se sacrificar em prol do coletivo é atacada. A expressão do individualismo e do livre exercício da mente criativa humana são moralmente mais legítimos e geram melhores resultados a própria sociedade.

Em A Revolta de Atlas, valores como a razão, a individualidade, a livre iniciativa, a honestidade, a independência, a justiça e a produtividade são destacados.

O motivo para o nome do livro vem da mitologia grega. Atlas era o Titã destinado a sustentar o céu, “carregando o mundo em suas costas’’. No livro, Atlas representa o setor produtivo, por analogia. No mundo real, são os empreendedores os responsáveis por carregar a sociedade e mover o mundo, gerando a receita que é utilizada por políticos e pelo setor público. A Revolta de Atlas é, portanto, o resultado do que ocorre com a sociedade quando empreendedores se cansam disso.

Ainda assim, a “Ilha da Liberdade”

Chama atenção o protesto ter sido iniciado no Espírito Santo e, posteriormente, ter se espalhado para outros estados do país. Isso porque o ES é uma Ilha de Liberdade se comparado aos demais entes federativos no Brasil. Muitos estão assolados por caos fiscal, má-infraestrutura e demais fatores que dificultam oportunidades de negócios.

O ambiente de negócios capixaba se destaca por um histórico de austeridade fiscal — atualmente o melhor do país. Além disso, o estado figura como o segundo mais livre economicamente no Índice Mackenzie de Liberdade Econômica Estadual. Este avalia o tamanho do governo, o mercado de trabalho e o sistema tributário dos estados. Em um score geral, o Espírito Santo figura como o 6º ente federativo mais competitivo do país. O resultado é um desenvolvimento acelerado de seu mercado de capitais.

Entretanto, ser o estado com ambiente de negócios mais proeminente do país não significa que o ES está bem se comparado a outros mercados emergentes de nações desenvolvidas.

Se no ES, que reúne as condições mais favoráveis para se empreender do país, se pergunta por John Galt, o que dizer do restante do Brasil?

2 comentários em “O que os capixabas precisam aprender com John Galt

  1. Avatar
    João Helder Lorenzoni Responder

    Uma reflexão atual, cheia de propriedades reais. Atingir ao conhecimento do público em seu maior número possível, assim sua consciência terá base para reivindicações.

  2. Avatar
    jose claudio dalla bernardina Responder

    Ótima matéria, leitura recomendada a todos !
    Quem patrocinou a publicação dos outdoors ?

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