Segunda onda de coronavírus: desastre ainda maior

Segunda onda de coronavírus

Esta semana o mercado financeiro mundial reagiu negativamente com dados que sinalizam um aumento dos novos casos de coronavírus nos estados americanos que já haviam reaberto suas economias, o que gerou temores em relação a uma segunda onda de coronavírus.

No Texas, foram em média 2000 casos diários na quinta-feira e na sexta-feira, recorde no estado. Já na Flórida, o dia com mais casos durante toda a pandemia foi essa sexta-feira (12), com 1902 novos casos. Essas unidades federativas vêm flexibilizando medidas de isolamento social à algumas semanas.

Com isso, as preocupações se voltam para um aumento no contágio e as possíveis consequências disso.

Consequências de uma possível segunda onda de coronavírus  

Uma segunda onda de contágio levaria a uma recessão ainda maior, prejudicando a lucratividade e o valor das empresas. Isso porque as economias poderiam ser novamente fechadas.

Como exemplo de países que voltaram atrás em algumas medidas que sinalizavam abertura, a China, após reabrir as salas de cinema no dia 23 de março, voltou a fechá-las 3 dias depois, devido à piora nos quadros de contaminação.

Já na Coreia do Sul, com a abertura dos bares no país em 9 de maio, o número de infectados por dia saltou de dez ou menos para 34. Depois disso, alguns estabelecimentos voltaram a fechar e outros tiveram sua reabertura adiada.  

No Irã, os casos começaram a cair no início de maio, estabilizando-se. Contudo, no mesmo mês voltaram a subir com a flexibilização de um lockdown rigoroso que estava sendo posto no país. Com esse aumento, a província de Khuzestan, por exemplo, retornou ao lockdown.

Na Alemanha também foi sentido um aumento no número de casos após maior afrouxamento de regras. Com isso, o governo tomou a atitude de limitar a movimentação de pessoas nas regiões mais afetadas e intensificar testes.

O Brasil, que já começa a reabrir a economia, deve se preocupar ainda mais que os demais países com uma possível segunda onda de contágio. Isso porque o país está menos preparado: há falhas tanto na política fiscal, quanto na monetária, além de um cenário caótico de piora na curva de contágio, com o país já sendo inclusive um dos que mais notificou casos no mundo.

Política monetária 

A política monetária promoveu a redução dos juros, mas foi incapaz de beneficiar as micro, pequenas e médias empresas.

Em abril, mais de 600 mil pequenas e médias empresas já haviam tido de fechar as portas, segundo levantamento do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às micro e pequenas empresas). Ainda foi mostrado que, no período, 55% dos micro e pequenos empresários precisavam pedir empréstimos para manter os negócios funcionando sem demissões.

No entanto, 86% dos empreendedores desconheciam ou apenas haviam ouvido falar em linhas de crédito disponibilizadas naquele mês.

No Espírito Santo, por exemplo, 1500 empresas já fecharam durante a pandemia, segundo levantamento da Junta Comercial do ES de junho. Em relação ao mesmo período do ano passado, foram 500 empresas a mais.

Além disso, o sistema bancário brasileiro já possui uma oferta de crédito cara. Afinal, em um sistema concentrado e sem competição, qual seria o motivo para ofertar dinheiro barato? Os clientes não possuem alternativa melhor. 

Dessa forma, o cenário para as micro, pequenas e médias empresas é extremamente custoso. 

Uma segunda onda de coronavírus agravaria o problema fiscal

A política fiscal foi extremamente limitada. Apenas o governo federal ajudou as famílias com o auxílio emergencial de R$ 600 pago à trabalhadores informais, autônomos e MEIs.

O valor total estimado para ser gasto com esse auxílio é de R$ 203 bilhões, após este ser prorrogado em junho. Por esse e por outros fatores, problemas fiscais já são previstos para esse ano e para os próximos.

Nesse sentido, o déficit primário do governo central para 2020 deve ficar em R$ 709 bilhões, de acordo com estimativa do Prisma Fiscal. Com isso, a expectativa é de que a dívida bruta do governo central seja de 92,68% em 2020 e de 92,79% em 2021.

Apesar desse gasto, os governos estaduais não contribuíram de forma alguma para melhorar a situação, tanto para as empresas, quanto para as pessoas que enfrentaram dificuldades.

Grande recessão que já está se impondo deve reduzir as receitas de todos os governos, levando ao aumento do déficit público e à piora dos fundamentos macroeconômicos. 

Conforme estimativa do Prisma Fiscal, deve haver queda de R$ 22,128 bilhões na receita líquida do governo, resultando em arrecadação de R$ 1,166 trilhão. Já quanto às receitas primárias, o Ministério da Economia reduziu as projeções em R$ 133,959 bilhões. 

O Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo (TCE-ES), por exemplo, fez levantamento que mostra os possíveis reflexos da atual crise para as contas públicas do estado. No melhor dos cenários, a receita total cairia R$ 2 bilhões em 2020 em relação à 2019. Para efeito de comparação, a receita do estado em 2019 foi de R$ 13,9 bilhões e houve superávit de R$ 1,6 bilhão.

A tendência com um segunda onda do vírus é de que os dados venham ainda piores, devido à continuidade da queda do consumo e da atividade econômica. Como consequência, a recessão deve ser maior, com mais falências e desemprego, e uma recuperação mais lenta. 

Considerações finais

Porém, há uma opção a ser seguida para tentar reduzir este desastre provocado pelo coronavírus e pela falta de ações dos governos, apesar da concretização ou não da segunda onda. 

Paradas no Congresso e na gaveta do presidente da república, temos as PECs 186, 187 e 188 e a PEC da Reforma Administrativa. A aprovação destas permitiria que o setor público tomasse o mesmo remédio imposto ao setor privado: reduzir os salários e os pesados gastos para manter funcionando a privilegiada máquina pública, ao contrário do que tentou-se fazer no país, com o reajuste de vários servidores

Assim, usando melhor os recursos nesse momento, seria mais viável ajudar o setor privado com cancelamentos de impostos ou mesmo doações em dinheiro. Inclusive, essa seria uma atitude ainda mais necessária na veemência de uma segunda onda de contágio. Além disso, o uso em investimentos para o setor de saúde seria favorecido, melhorando nossa capacidade de tratamento e de testes. 

O resultado esperado: uma redução da recessão e uma melhora no tratamento e prevenção da pandemia. Já passou da hora dos políticos pararem com os discursos e começarem a agir. Mas, para tanto, devem tirar os olhos de Brasília e começarem a olhar para o Brasil.

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