Investimentos em ações e FIIs: quais são as perspectivas?

Investimentos em ações e FIIs

Com o coronavírus, surgiram oportunidades nos mercados de investimentos em ações e FIIs, devido ao descolamento do preço dos ativos do preço justo. Ainda houve o favorecimento desse setor pela redução das taxas de juros e a consequente entrada de novos investidores no mercado.

Em nossa live realizada ontem em parceria com o BTG Pactual, elencamos questões relacionadas ao mercado de investimentos, com base nas análises de Luiz Paiva, equity portfolio manager, Daniel Marinelle, FIIs research, e Ricardo Cavalieri, estrategista de ações, do BTG, e os especialistas da APX investimentos Tiago Pessotti e Douglas Pezzin.

Há espaço para a bolsa continuar andando ou ela vai descolar do preço justo?

Para que continuemos a ver crescimento no mercado de ações é necessário que a agenda de reformas seja mantida, assim como o equilíbrio fiscal. Trazer o cenário político para patamares mais estáveis também é fundamental. Esses fatores devem permitir, segundo Ricardo, que a curva de juros caia ainda mais.

Assim, para que o mercado continue em sua trajetória de alta, o fundamento deve acompanhar a valorização dos ativos para não haver correções. E isso vale para os investimentos não só em ações, mas também em FIIs.

Segundo Cavalieri, ainda, tudo indica que em junho as economias mundiais deverão continuar seu ritmo de reabertura, combinado com estímulos monetários e fiscais.

Algo que deve estimular esses ganhos é, sobretudo, o estímulo maior para tomar risco por parte dos investidores, visto que o cenário é de um patamar de juros mínimo. Para isso, ele fez uma análise sobre Preço/Lucro (P/L) médio do Ibovespa, apontando que em 2019 o valor médio desse múltiplo estava em 18,5 vezes. Olhando para o cenário de 2021, é prevista a negociação do índice com P/L de 14.

O especialista ainda ressaltou que as previsões justas para a bolsa circundavam os 112 a 115 mil pontos antes da crise, e deixou claro que esses patamares só seriam justos na hipótese de retomada das reformas e maior controle fiscal.

Pode haver uma nova realidade de preços mais esticados após a injeção de liquidez?

Luiz disse verem um múltiplo de liquidez para 2021 um pouco acima da média histórica. Isso porque o fluxo parece estar falando mais forte que o fundamento, em meio às perspectivas de retomada. Alguns dos fatores para manter o crescimento são:

1) A volta dos investidores estrangeiros para manter o patamar. Os fundos globais estão alocados em Brasil em 0,2%, sendo que esse valor já chegou a 2%, segundo ele.

2) Em cenários de crise, as empresas maiores costumam são mais resilientes que as menores. Assim, a capacidade de manutenção dos negócios de empresas líderes de mercado se sobressai a longo prazo. Dessa forma, pelo ganho de market share das empresas maiores, o Ibovespa deve participar com ganhos, visto que seleciona as maiores empresas brasileiras. 

3) O mercado de capitais está tendo um fluxo recorde. Exemplo claro é o aumento do lucro líquido recorrente da B3, de R$ 1,157 bilhões no primeiro trimestre deste ano, um aumento de 59% em relação ao ano anterior. Outro exemplo é o BTG, que teve um lucro ajustado de R$ 789 bilhões em 2020, 9,4% a mais na comparação anual, apesar da crise.

O especialista não pensa que no Brasil haja uma bolha, somente que o preço dos ativos descolou um pouco, mas ainda há muitas oportunidades. Destacaram que ainda devem ter muitas notícias negativas, mas há oportunidades na bolsa brasileira visando o longo prazo. Há R$ 7 trilhões na renda fixa hoje, enquanto na bolsa são R$ 3,5 trilhões, o que mostra um espaço para crescimento deste segmento.

Como se proteger e performar melhor em um cenário pessimista no mercado

Uma abordagem possível caso as reformas não andem e o cenário fiscal seja deteriorado é, segundo Paiva, operar câmbio, muito comum em fundos multimercado. Outra solução seria a compra de papéis que mantém alta correlação com o câmbio, como exportadoras, e não apenas players domésticos. Ele ressaltou, no entanto, que medidas como essas não costumam resolver a questão quando há instabilidades políticas, visto que tanto os investimentos em ações como em FIIs sofrem nesse cenário.

Por fim, as medidas mais usuais são: o uso de caixa e de derivativos, que seriam mais seguros em eventuais momentos de oscilação.

Ações que ainda devem valer a pena

No momento atual de câmbio desvalorizado, Ricardo afirmou que a casa de investimentos destaca exportadoras, como JBS e Vale. Esta última, segundo ele, está em um bom momento. O minério de ferro passou por variações bem mais sutis durante a crise e agora já assume preços altos, além de a empresa gerar muito caixa e ter expectativa de resultados muito bons. 

Além disso, o descasamento da oferta e da demanda, com o fechamento de minas, mantém a estabilidade do preço e a relação direta com a China traz benefícios.

Também mencionou a Gerdau, que é diretamente relacionada com a construção civil, e pode ser impulsionada pelos estímulos definidos pelo presidente Donald Trump.

Já Luiz Paiva destacou o setor de educação, mais especificamente a empresa Cogna, ressaltando boas perspectivas para o longo prazo.

Com o cenário de juros baixos, ele ainda chamou atenção para o setor de construção. Porém, os imóveis dependem de dados de confiança, desemprego e renda, o que pode ficar um pouco prejudicado no curto prazo. Foi ressaltada pelo analista a empresa Cyrela, nesse campo, devido ao destaque do setor residencial.

Luiz também declarou, assim como Ricardo, haverem perspectivas positivas para a JBS, por gerar fluxo de caixa, ser líder de mercado e possuir diversificação tanto geográfica quanto em relação aos seus produtos.

Além dessas, a hapvida foi analisada como promissora no setor de saúde, devido a uma boa gestão. Com o coronavírus, a telemedicina foi aprovada pelo conselho nacional de medicina, e esse serviço foi otimizado. Outro fator é que muitos dos seus pacientes estão pagando pelos serviços sem utilizá-los, uma vantagem para empresa. Bem como, ela possui um caixa considerável e planeja comprar mais operadoras.

Perspectivas para o setor bancário

Ricardo afirmou que a casa já foi muito mais otimista com esse setor, mas há alguns entraves no momento atual. São impostos riscos regulatórios, como a Contrbuição Social Sobre Lucro Líquido (CSLL), que ameaçam a alta rentabilidade do setor. Sem falar da digitalização dos serviços vista com a pandemia, que pode favorecer fintechs. 

Ainda foi lembrado sobre uma diminuição de rentabilidade dos bancos, principalmente no cenário de pandemia, onde há um aumento no provisionamento de perdas, atingindo parte dos lucros.

Perspectivas para o setor de fundos imobiliários e a incomum alta volatilidade 

Segundo Daniel Martinelle, especificamente dentro dos FIIs, há muito espaço para crescimento, visto que o setor ainda é muito incipiente no Brasil. Enquanto isso, em outros países esse mercado é muito mais desenvolvido.

Daniel destacou que apesar de os fundos serem, via de regra, considerados mais seguros e menos voláteis, os dois setores conversam muito. Tanto os investimentos em ações como em FIIs, naturalmente sentiram os efeitos da crise, principalmente com as medidas restritivas. Mesmo assim, há variáveis específicas dos FIIs. Falando do panorama geral, em 2019 ocorreu o melhor retorno desde a criação do IFIX em 2010. Mas com a crise, a volatilidade anterior de 0,3% foi revertida, e os FIIs chegaram a cair mais de 10% durante o auge da crise.

Outro fator é que, hoje, 70% desse mercado é composto por pessoas físicas. A consequência disso é que, em momentos de crise, esses investidores têm menor qualificação e sabem lidar menos com as quedas. Dessa forma, a volatilidade dos ativos aumenta. 

Ainda foi ressaltado por Martinelle que há um fluxo muito forte de pessoas entrando para a renda variável, e os FIIs são uma porta de entrada para parcelas mais conservadoras, visto que a taxa Selic está em sua mínima histórica e a renda fixa está em patamares sem atratividade alguma.

Agora há um fluxo forte e o mercado está indo bem, mas assim como para as ações, é preciso um suporte fundamentalista. Em março, nesse sentido, havia descontos bastante irracionais no preço dos ativos, mas agora os descontos não são mais tão atrativos. 

Isso porque, em alguns segmentos, os fundos já estão acima do valor patrimonial. Portanto, o principal ponto é escolher bons ativos, pensados para o longo prazo.

Mudanças esperadas no mercado de FIIs após o home office 

Daniel afirmou que não há como saber o real grau de impacto dos segmentos, mas certamente não houve beneficiados. Até mesmo os galpões logísticos, que ganharam no curto prazo, tiveram prejuízos com a diminuição da atividade econômica. 

Outro setor tido como vitorioso nesta crise foi o digital e de commerce. Martinelle afirmou que estes já estavam muito presentes, mas que a pandemia apenas acelerou esse processo. Ainda assim, dados negativos vão bater na porta em algum momento, visto que o consumo naturalmente diminuiu, assim como a renda e o emprego dos brasileiros. 

Quanto ao home office em si, ele afirmou que se torna uma alternativa, já que foi vista sua eficiência. Porém, a queda do custo do aluguel por parte das empresas em virtude do home office deve ser bastante incipiente e deve depender da empresa. Além disso, há fatores que jogam contra o home office, de acordo com Daniel: a criatividade e a troca entre os colaboradores fica prejudicada no longo prazo, trazendo problemas de inovação.

Também destacou a segurança, como no caso de bancos, onde eventuais home offices trariam o perigo decorrente de hackers, e os obstáculos, devido à falta de infraestrutura para trabalho, gerando mais custos para que as empresas equipem seus funcionários.

Para mais, ele falou sobre a atratividade de fundos de lajes corporativas, visto que em regiões específicas há uma taxa de vacância muito baixa, por serem regiões premium, que não deve ser revertida.

Enfim, o entendimento do especialista é de que o home office deve ser aplicado, mas isso será mais gradual, além de haverem questões contra ele.

Considerações finais 

Mesmo com a bolsa em patamares não tão atrativos como no auge da crise, ainda há oportunidades. Nesse sentido, é importante estar atento à escolha de bons ativos, pois estes tendem a performar bem no longo prazo.

Para concretizar um cenário positivo dos investimentos em ações e FIIs, ainda, é necessário que o cenário político mantenha certa estabilidade e foque na aprovação de pautas essenciais para o país, como as reformas.

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