Irresponsabilidade fiscal: o que fazer nesse cenário?

Irresponsabilidade fiscal

O melhor ativo que um investidor pode ter é a informação, o que fundamenta estar preparado para diferentes cenários, mesmo os mais remotos. Pensando nisso, a Apex Partners realizou nesta quinta-feira (17) uma live a respeito dos setores mais sensíveis em um cenário de desequilíbrio da dívida pública e aumento da taxa de juros, consequências de um quadro de irresponsabilidade fiscal.

O evento contou com a participação do economista-chefe da Casa de Investimentos Arilton Teixeira e Arthur Mota, economista da Exame Research. Ainda contou com a mediação do Editor-chefe da Apex Partners Luan Sperandio.

Cenário atual de incertezas fiscais

Como evidenciado na Carta do Economista de Setembro, nas últimas semanas percebemos que o mercado externo manteve a tendência de valorização do preço dos ativos a partir da retomada econômica. Em paralelo, no Brasil desde o início de agosto a bolsa apresenta volatilidade e eventualmente caindo diante de incertezas fiscais.

Ela decorre de discussões a respeito de uma possível flexibilização da Regra do Teto. Essa medida poderia ser viabilizada politicamente por aprovação de PEC no Congresso ou um adiamento do estado de calamidade pública a partir do Executivo. Nesses cenários, a âncora fiscal ficaria comprometida, com tendência de aumento na taxa de juros.

Tradicionalmente o último quadrimestre de cada ano é marcado pela “guerra orçamentária”, em que algumas áreas buscam aumentar os gastos públicos para si, gerando incertezas entre investidores e empresas.

Nas últimas semanas tivemos indicadores positivos em relação à retomada econômica. Entretanto, quanto à situação fiscal, 2020 terminará com o Brasil tendo um endividamento público próximo de 100% do PIB, segundo estimativas da equipe econômica. Ou seja, o país continua como emergente, de renda média e com enorme demanda de infraestrutura sanitária, logística e digital, mas com endividamento de país desenvolvido. Se, por um lado, isso é preocupante, em um cenário de juros baixos é uma oportunidade para o mercado de capitais ser responsável por esse ponto de virada, daí a importância de mitigarmos a irresponsabilidade fiscal.

Setores mais vulneráveis à irresponsabilidade fiscal

Arthur Mota explicou que via de regra o impacto negativo de um aumento de juros seria uniforme, “por uma questão matemática”. Porém, há setores mais vulneráveis e outras atividades econômicas que, embora prejudicadas, são mais resilientes e podem ser vistas como alocações defensivas nesse cenário. Ou seja, “são setores que tendem a ir um pouco melhor em relação aos outros”.

O economista da Exame Research apontou que o setor de construção, por exemplo, seria muito afetado. Isso, porque tem uma parcela da dívida das incorporadoras já atrelada aos juros e depende muito de crédito para empréstimos mais longos.

Outro setor analisado e que pode ser muito prejudicado é o de energia elétrica. Isso se dá, principalmente, pelas linhas transmissoras, que são investimentos de longo prazo, e possuem crédito e juros que devem ser encarecidos neste cenário.

No geral, os setores de transporte e serviços aéreos são afetados negativamente, pois dependem da taxa de de câmbio, que é pressionada com juros baixos. Isso poderia prejudicar um bom fluxo bom de turismo com a reabertura econômica.

Já as seguradoras têm uma garantia maior pela manutenção de sua atividade corriqueira, que são os sinistros, e elas são menos atreladas ao ciclo econômico.

A dinâmica desta atividade é diferente e compõe um setor que tem de deixar provisões. Então, seu fundo permanece atrelado a títulos do tesouro a fim de manter o caixa da empresa. 

Bancos também tendem a sobreviver neste cenário de juros elevados, da mesma forma que setores exportadores de commodities dependem da melhora no consumo de outros países. São, portanto, setores apontados como defensivos em um cenário de irresponsabilidade fiscal.

Como empresas podem se proteger em um cenário de irresponsabilidade fiscal?

Diante de riscos altos, é mais fácil se planejar, adiar investimentos, reduzir pessoal, corte de despesas e, eventualmente, realizar ainda desinvestimentos.

Contudo, diante de incertezas como no cenário atual é mais provável haver “postergação de investimentos”. Contudo, Arilton e Arthur destacaram que os incentivos criados pelo Orçamento de Guerra ainda estarão em vigor até o final de 2020. Dessa forma, empresários devem aproveitar que a mão de obra está mais barata, sendo subsidiada pelo governo.

Outra alternativa para o momento é buscar migrar para setores de consumo de de renda mais alta, pois estes conseguem manter o consumo mesmo diante da crise. 

O cenário é favorável ainda para aproveitar os repasses de renda do governo, o coronavoucher, e em setores em que a demanda é inelástica, como supermercados, buscar aumentar as margens de lucro e fazer caixa por após o fim do programa deve haver queda do consumo.

Como investidores podem se proteger em um cenário de irresponsabilidade fiscal?

Os especialistas apontaram que os investidores podem se proteger inicialmente avaliando o risco dos ativos e a fonte de renda. “É importante reduzir a volatilidade da carteira e ter um caixa de ao menos seis meses de renda de emergência. Isso deve ser feito antes de pensar em mudar os investimentos. Por fim, é importante analisar empresa a empresa, pois algumas do varejo por exemplo, setor que não vai tão bem como um todo, conseguiram se adaptar ao e-commerce”, afirmou Arthur Mota.

Além disso, reduzir a volatilidade buscando ativos de menor risco pode ser uma saída pensando no longo prazo, pois devem ser levados até o vencimento. Um exemplo é a renda fixa, a partir de alguns títulos do tesouro e debêntures a médio e longo prazo. Isso pode ser interessante como proteção caso se consolide um cenário de crise fiscal, pois neste se aumenta a inflação.

Vale lembrar que o investidor ter dólar na carteira é uma segurança para quem investe no Brasil pois se trata de um ativo descorrelacionado.

Críticas à política fiscal do governo Bolsonaro

Mota apontou que o governo Bolsonaro está em um momento de melhora de articulação política diante da aproximação com o Centrão. Além disso, há melhor diálogo com o legislativo e o governo tem apresentado aprovação popular crescente. Este é um cenário que tende a facilitar aprovar reformas, se for de seu interesse. 

Teixeira defendeu que é preciso aprovar a reforma administrativa, a PEC dos Fundos e a PEC do Pacto Federativo, pois são essenciais para conter o crescimento inercial dos gastos públicos.

Arilton criticou as oscilações do governo Bolsonaro em relação ao ambiente fiscal do país, afirmando que este deveria atacar privilégios do funcionalismo público como forma de reduzir o risco fiscal. Criticou ainda o fato do projeto da reforma administrativa poupar os servidores atuais. “O governo em si parece ter perdido o apetite pelas reformas”. “É possível recuperar o foco do governo, mas, no momento, a situação é preocupante e devemos prestar atenção”, pontuou. Por outro lado, o economista-chefe analisou que há um amadurecimento no Congresso em relação ao entendimento de necessidade de responsabilidade fiscal.

Perspectivas para o cenário até o final do ano

Além das análises em um cenário pessimista, Arilton Teixeira destacou suas perspectivas até o final de 2020. “Os números estão melhorando, o Boletim Focus tem convergido para uma queda da economia de 5,5%. O dado está distante do cenário mais agudo da crise, em que alguns mais pessimistas apontaram até 10% de queda. Nas minhas projeções, tenho pensado em um número mais próximo a 6,5% porque a recuperação do setor de serviços me parece superestimada. Isso, porém, não é o fim do mundo porque o PIB já caiu, agora é a parte da recuperação da economia. O ponto é quão rápida ela será.”

Arilton destacou ainda que os riscos discutidos na live se referem mais às incertezas que o comportamento do governo tem gerado no mercado, e que se houver discursos mais claros e sem ambiguidades e oscilações não haveria tamanhas incertezas. “O setor privado está indo bem, crescendo menos do que o esperado, mas crescendo. Não estamos caminhando para um próximo Governo Dilma”, finalizou.

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