Como foi o primeiro debate entre Trump e Biden

Nesta terça (29), houve o primeiro debate entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos: Donald Trump (Partido Republicano) e Joe Biden (Partido Democrata). 

Diferentemente das regras dos debates no Brasil, este foi mais livre, havendo a possibilidade de intervenções dos candidatos na fala um do outro e havendo tempos determinados para cada tema mais longos.

Os assuntos acordados entre as candidaturas foram o Histórico dos Candidatos, a Suprema Corte, a COVID-19, Economia, Tensões Raciais e Integridade das Eleições, sendo dedicados 15 minutos para cada um.

Aqui está um resumo do que de principal ocorreu no debate entre Trump e Biden, com contextualizações para facilitar sua compreensão.

Suprema Corte

Não foi à toa que o primeiro tema do debate começou pela Suprema Corte. Ao longo de setembro, este foi um assunto muito comentado, devido ao falecimento da juíza Ruth Bader Ginsburg.

Afinal, abriu-se uma vaga na Suprema Corte dos Estados Unidos faltando pouco mais de um mês para as eleições. O presidente Trump indicou a jurista Amy Coney Barrett para o lugar e defendeu a confirmação imediata pelo Senado, que tem maioria republicana. Barrett possui um perfil conservador, contrastando com o histórico progressista de Ginsburg. Caso seja confirmada haverá uma maioria conservadora na corte de seis a três.

Desde 1900, é a oitava vez que uma vaga na corte é criada em um ano de eleições presidenciais nos Estados Unidos. Neste período, houve várias nomeações presidenciais e as consequentes confirmações pelo Senado. A indicação de Trump, contudo, causou controvérsia porque, quando o magistrado Antonin Scalia faleceu no início de 2016, a indicação de Barack Obama não prosperou.

À época, o Senado, de maioria republicana, não analisou a indicação de Merrick Garland pelo presidente democrata, alegando que esta deveria ser deixada para o próximo presidente como forma de participação popular dos rumos da Suprema Corte.

No debate, Trump defendeu desde já a nomeação por “ter sido eleito para governar por quatro anos, e não três”, além de elogiar tecnicamente Barrett. Em contrapartida, Biden afirmou que a questão seria uma “injustiça” e “abuso de poder”.

Obamacare

A controvérsia em relação à indicação de Barrett para a Suprema Corte ganhou como plano de fundo a acusação de Biden do que, em sua opinião, estaria por detrás deste movimento de Trump. O democrata afirmou não ter oposição à indicação de Barrett, mas criticou a posição da magistrada em relação ao Obamacare, uma política implementada quando foi vice-presidente de Obama. 

Para ele, a intenção de Trump com sua nomeação é “derrubar o Obamacare”, uma vez que, a indicada já defendeu a inconstitucionalidade do programa.

Biden aproveitou para fazer uma defesa do legado do Obamacare, afirmando que seu fim deixaria “200 mil pessoas sem cobertura do plano de saúde”. Ele também defendeu uma “expansão” do programa, acusando Trump de querer revogá-lo sem apresentar planos alternativos.

Em resposta, o republicano afirmou querer melhorar o Obamacare para tornar os planos mais baratos e acessíveis, ao passo que Biden seguiria a linha de Bernie Sanders de querer “socializar a medicina”.

Enfrentamento ao Covid-19

Os Estados Unidos registrou mais de 7 milhões de casos de Covid-19, havendo 205 mil mortes até o momento. Está em debate formas de mitigar a crise sanitária e de como se dará a distribuição da vacina quando esta estiver disponível.

Joe Biden acusou Trump de não ter um plano e de ter sido irresponsável em relação ao Coronavírus, embora tenha reconhecido em gravações que sabia da seriedade da questão. Além disso, também lembrou os elogios de Trump à China no início da pandemia, apesar de seu comportamento negligente.

Em contrapartida, o republicano afirmou que seu governo ofereceu de toda a infraestrutura necessária ao enfrentamento da pandemia: “oferecemos respiradores, máscaras, terapias e tratamentos. A vacina já está a caminho, fizemos um trabalho excepcional. Biden não teria a mesma competência para fazer o trabalho que realizei”.

Segundo Trump, “até mesmo governadores democratas elogiaram minhas iniciativas no combate à pandemia”, e “estas medidas salvaram mais de 2 milhões de americanos”. Declaração que foi ironizada por Biden.

Por fim, Trump criticou o adversário de querer “fechar completamente a economia dos Estados Unidos”. Ele afirmou que isso “destruiria a economia”, e respondeu às críticas de ter sido “irresponsável em relação ao distanciamento social” e ao “desincentivo do uso de máscaras”.

Economia

Antes da pandemia, durante os primeiros três anos do Governo Trump, houve um crescimento econômico médio anual de 2,5%, em comparação aos 2,3% de média registrados nos últimos três anos do governo Obama.

Já o índice de desemprego nos Estados Unidos com Trump chegou ao menor índice em mais de 50 anos. Em fevereiro deste ano, a taxa era de 3,5%. Com a Covid-19, a taxa saltou para 14,7% em abril, o maior nível desde a Grande Depressão dos anos 1930 e, desde então, caiu significativamente, para 8,4% em agosto.

No debate, o presidente Trump reafirmou de que a retomada econômica norte-americana será em “V” e que “a economia nunca esteve tão bem na história deste país”, defendendo uma reabertura da economia mais célere.

Já Biden disse que Trump será “o primeiro presidente da história a terminar o mandato com menos empregos”. E ainda criticou o suposto fato de que mesmo sendo bilionário, o republicano teria pagado apenas 750 dólares em imposto de renda.

Em resposta, o republicano afirmou que pagou “milhões de dólares”, defendendo a elisão fiscal para empreendedores pagarem menos impostos dentro da lei, e que aproveitou benefícios fiscais criados pelo governo Obama.

Biden, por sua vez, prometeu eliminar o corte de impostos realizados no Governo Trump, taxando mais os mais ricos e as grandes corporações, garantindo a arrecadação de até quatro trilhões de dólares com a medida.

“Isso prejudicará a economia, as empresas sairão dos Estados Unidos e isso nos levará a uma recessão”, contra argumentou Trump.

Questão racial

Trump associou Biden à esquerda radical e que, portanto, não seria a favor da “lei e da ordem”, uma narrativa republicana que ganhou peso nos últimos meses. Além disso, ele criticou o adversário de querer fazer cortes em segurança e afirmou que os estados governados por democratas são “mais violentos”.

Já Biden afirmou em sequência que protestos violentos “não são apropriados”, e que as manifestações devam ser pacíficas, defendendo ainda punição para policiais com infrações.

O debate avançou em relação à polarização dos Estados Unidos, com Biden afirmando que unificará as pessoas e Trump defendendo que o clima de “ódio, polarização e violência começaram com Obama e que, à época, havia mais violência do que hoje”.

Questionado, Trump não condenou de forma veemente grupos supremacistas brancos, e buscou igualá-los com grupos da esquerda radical. “Alguém tem de fazer alguma coisa a respeito da Antifa”, afirmou. Biden argumentou que a “Antifa é uma ideia, e não uma milícia”, mas não respondeu se apoia o movimento Black Lives Matter.

Preservação ambiental

Donald trump disse defender um ar puro,  água pura e que os números de preservação ambiental “estão bem, e não destruímos nossas empresas”. Voltou a criticar o Acordo de Paris, e defendeu melhor gestão das florestas.

Além disso, ele atacou Biden de ter um plano ambiental que prejudicaria as empresas do país. E buscou ligá-lo à proposta de Bernie Sanders enumerada no Green New Deal, ao que foi negado.

Já Biden, cujo plano de governo tem como uma das prioridades o meio ambiente, citou o Brasil para criticar novamente a política externa do oponente.

Acusou Trump de não usar sua influência para ajudar a “defender a natureza” e que “as florestas tropicais no Brasil estão sendo destruídas”. Afirmou que, em seu lugar, reunirá outros países para criar um fundo de US$ 20 bilhões para ajudar na preservação dos biomas brasileiros. Por fim, também ameaçou o Brasil economicamente caso não haja melhorias nas políticas de preservação.

Integridade das Eleições

O sistema eleitoral dos Estados Unidos tem regras complexas, não sendo homogêneo em todo o país. E, com a pandemia, mais eleitores devem votar por correio. Contudo, o republicano tem alegado que o sistema não é seguro, que pode ser vulnerável a fraudes e que os democratas seriam favorecidos no processo. 

No debate, Biden disse que vai aceitar o resultado final da eleição, mesmo que seja de derrota. Já Trump, além de colocar novas dúvidas sobre a lisura das eleições, não disse se aceitará, ou não, o resultado das eleições caso seja derrotado.

Histórico dos candidatos

Donald Trump defendeu o legado de seu governo como a “melhor economia na história do país, mesmo diante da Covid-19” e defendeu continuidade para recuperar a economia e o patamar de empregos de antes da pandemia.

Afirmou ainda que “reconstruiu as forças armadas” e que, ao final do primeiro mandato terá confirmado um número recorde de juízes federais — mais de 300 —, dando maior eficiência ao sistema judicial. Em contrapartida, lembrou que no governo Obama dezenas de vagas ficavam vagas na corte de apelações, prejudicando os trabalhos do Judiciário.

Biden, por sua vez, novamente criticou a polarização promovida por Trump e defendeu que, quando vice-presidente, a economia dos Estados Unidos passava por uma recessão, e que foram os democratas os responsáveis pela recuperação da economia. Uma conquista que, segundo ele, “Trump destruiu novamente”.

Além disso, Biden também defendeu que, sob Trump, “os ricos ficaram ainda mais ricos enquanto os mais pobres empobreceram”. E criticou a política externa do atual governo, afirmando que o republicano é negligente com Vladmir Putin. Por fim, disse que durante a administração Trump, a violência aumentou em 15%.

Debate entre Trump e Biden e pesquisas de intenção de voto

Joe Biden tem liderado as pesquisas, mas Trump ascendeu nas últimas semanas. Segundo a Quinnipiac, 5% dos likely voters, isto é, os eleitores que provavelmente votarão nas eleições, ainda não decidiram em quem votar. Daí a importância do confronto de ontem.

Como o voto nas eleições norte-americanas é facultativo, um candidato com menos aprovação geral pode eleger-se (como o próprio Trump em 2016). Dessa forma, uma estratégia possível é buscar mobilizar uma presença maior entre seus apoiadores nas urnas de estados estratégicos; ao mesmo tempo em que se busca reduzir a quantidade de eleitores contrários que comparecerão às urnas. 

Nesse sentido, os swing states ou purple states são os estados em que não há uma predominância histórica de apoio a um determinado partido, sendo os mais estratégicos para conseguir maior número de delegados.

A média das pesquisas realizadas neste momento apontam que as intenções de voto em Biden superam Trump nos seis swing states que devem decidir as eleições. Antes do debate, o jogo do tabuleiro estava assim: Arizona (Biden +3,4), Flórida (Biden +1,1), Michigan (Biden +5,2), Carolina do Norte (Biden +0,8), Pensilvânia (Biden +5,7), Wisconsin (+5,5). Na média geral, portanto, Biden levava uma vantagem de 3,6%.

Antes das eleições, ainda haverá mais três debates. Os candidatos a vice Mike Pence e Kamala Harris debaterão em 7 de outubro em Salt Lake City, Utah. Haverá ainda novo debate entre Trump e Biden em 15 de outubro, na cidade de Miami, na Flórida. E um último confronto em 22 de outubro, em Nashville, Tennessee. As eleições ocorrerão em 3 de novembro de 2020.

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