Competitividade no Espírito Santo: uma análise completa

Competitividade no Espírito Santo

O Brasil não está entre os países mais competitivos do mundo. No ranking do Fórum Econômico Mundial, liderado por Cingapura, Estados Unidos e Hong Kong, o País aparece apenas na 71ª colocação. Entretanto, no cenário nacional o Espírito Santo se destaca como o quinto ente federativo no que se refere à competitividade. É o que mostrou o Ranking de Competitividade dos Estados, do Centro de Liderança Pública (CLP). Além disso,

No mundo empresarial o nível de competitividade de um negócio é fator determinante para seu sucesso. A partir dele, a organização se destaca perante os concorrentes, obtendo resultados melhores com o público-alvo e o mercado de forma geral. Já no âmbito dos estados e países, a lógica se mantém. Assim, quanto mais competitivo, maior é a atração de investimentos, empresas e dos melhores trabalhadores, gerando maior desenvolvimento socioeconômico e prosperidade.

Desse modo, o estudo é útil para indicar o que deve ser aprimorado no que tange ao funcionamento dos entes em questão. Ele também auxilia em decisões do setor privado de investimentos produtivos, com critérios de atratividade a partir de parâmetros e comparações entre os Estados. Assim, é buscada afinidade e conexão com cada projeto de investimento em potencial.

O ES pontuou 60,4 pontos, atrás de São Paulo (que lidera com 89,1 pontos), Santa Catarina (76,6), Distrito Federal (73,6) e Paraná (60,4). Nas últimas colocações, encontram-se Roraima, Piauí e – por último – o Acre, com 31,4 pontos.

São analisados 68 indicadores distribuídos em 10 pilares temáticos. São eles: Infraestrutura, Sustentabilidade Social, Segurança Pública, Educação, Solidez Fiscal, Eficiência da Máquina Pública, Capital Humano, Sustentabilidade Ambiental, Potencial de Mercado e Inovação.

Solidez fiscal

A solidez fiscal de qualquer governo é condição para o crescimento sustentável. Se as despesas governamentais ficam consistentemente acima de suas receitas, o resultado é o aumento do endividamento da administração pública. Como consequência, há uma baixa capacidade para se investir na ampliação e manutenção dos serviços públicos. Nesse sentido, a boa situação fiscal do Espírito Santo foi um dos fatores que permitiu, por exemplo, uma menor vulnerabilidade diante da crise sanitária, trazendo mais competitividade. Mais do que isso, o caos fiscal reduz o grau de investimento da região, o que significa que o crédito fica menos acessível para empresas.

Isso resulta na queda na produção de produtos e serviços, além de um cenário de aumento da inflação e do desemprego.

Nessa questão, o Espírito Santo teve seu melhor número: a nota máxima de 100 pontos. O estado beneficiou-se da favorável colocação no indicador de Solvência Fiscal, bem como da melhora relativa nos indicadores de Taxa de Investimentos, Sucesso do Planejamento Orçamentário, Dependência Fiscal, Resultado Primário e Gasto com Pessoal. A única questão que apresentou piora refere-se à poupança corrente.

Eficiência da Máquina Pública

O Brasil apresenta o pior retorno em impostos para a população comparado a todos os países que integram a OCDE, de acordo com o IBPT. A ineficiência da burocracia pública é um dos fatores que diminui a produtividade da economia ao mitigar a construção de um ambiente de negócios salutar.

Nesse quesito central para a competitividade, o Espírito Santo apareceu na 3ª colocação entre os entes federativos, com 95,3 pontos. O único fator que obteve queda na avaliação foi o custo do Judiciário capixaba. Como divulgado pelo CNJ em agosto deste ano, cada magistrado custou aos cofres públicos, em média, R$ 54.907,00 por mês em 2019. Em contraste, em meio à pandemia, o TJES apresentou a pior produtividade do País.

Em relação ao restante do país, a máquina pública de doze estados e do Distrito Federal se tornou mais ineficiente, perdendo posições no ranking, com menores ofertas de serviços digitais e menos transparência. No caso do Distrito Federal, a mudança foi ainda mais grave, saindo da liderança do ano passado e saltando para a 14º posição.

Sustentabilidade ambiental

O padrão de desenvolvimento econômico pode ser comprometido a médio e longo prazos em virtude de externalidades negativas e de sanções internacionais. Um exemplo é que o desmatamento na Amazônia vem dificultando negociações entre acordos comerciais com outros blocos.

Nesse sentido, o estudo do CLP avaliou emissões de CO2, serviços urbanos, destinação de lixo, tratamento de esgoto e perda de água. O ES subiu posições neste indicador e ficou na 4ª colocação, com 78,4 pontos.

Vale lembrar que metade da população capixaba ainda vive sem saneamento básico, e o esgoto tratado chega a apenas 25% das casas. Além disso, 40% da água tratada do estado é desperdiçada, e, na Grande Vitória, menos de 5% do lixo recolhido é reciclado. Mas este é um cenário que o mercado de capitais deve protagonizar a partir de um cenário de juros baixos e com o Novo Marco do Saneamento.

Sustentabilidade social

O pilar da sustentabilidade social gira em torno do tema da vulnerabilidade. Para isso, avalia como o aparato estatal ampara as classes menos favorecidas e garante os direitos fundamentais e sociais da população como um todo. No ES, mais de 825 mil pessoas vivem abaixo da linha da pobreza. Assim, mais de 150 mil capixabas recebem menos de R$ 143 por mês.

A conexão desse pilar com a competitividade é absoluta. Isso porque não há melhor definição de um Estado competitivo do que aquele que é capaz de maximizar o bem-estar social de seus habitantes. A partir disso, eles se inserem no mercado de trabalho, potencializando as taxas de crescimento e reforçando o tamanho do mercado consumidor.

A partir de sua face multidimensional, pode-se observar diversos pontos que o Espírito Santo deve melhorar para desenvolver-se ainda mais no campo da competitividade. Para tanto, alguns dos pontos de melhora são a inadequação de moradia, a desigualdade de renda, a inserção econômica dos jovens e a mortalidade materna.

O desemprego aparece como um dos principais geradores dos problemas apresentados. No estado, a taxa de pessoas sem trabalho é de 12,3%.

A partir da análise de todos esses pontos, o Espírito Santo ficou com nota 70,9, na 8ª posição.

Potencial de Mercado

Neste pilar foi considerada a taxa de crescimento do estado, assim como o tamanho do mercado e o potencial da força de trabalho. Estes são fatores que influenciam na decisão de investimento das empresas e contribuem, dessa forma, para definir o potencial de mercado.

O ES obteve uma grande queda nesse quesito. Houve uma queda de 11 posições em relação ao ano anterior no que tange à taxa de crescimento do potencial de mercado. Na avaliação geral, o estado figura na 23ª colocação, com apenas 6,7 pontos.

Capital Humano

Reconhecidamente, o baixo nível de qualificação da mão de obra é uma das principais barreiras ao desenvolvimento econômico e social. Ele está relacionado diretamente aos índices educacionais do País. Enquanto o trabalhador brasileiro possui 8 anos de escolaridade em média, nos países da OCDE a escolaridade média é de 12 anos, segundo dados de 2018 da UNESCO e PNUD, o que resulta em um cenário de baixa produtividade por trabalhador.

O ES conquistou apenas 30,5 pontos, ficando na 14ª colocação. Como fatores com pioras, estão o custo de mão de obra e a produtividade do trabalho, que caiu.

Inovação

De forma ampla, a inovação consiste na introdução de novas técnicas, métodos, produtos e serviços que melhoram e potencializam o funcionamento interior das empresas, organizações e da sociedade em geral. Envolve, portanto, uma melhora significativa, que, em geral, substitui práticas e processos anteriores, com ganhos de produtividade.

O ambiente ideal para o surgimento de inovações tem como fatores primordiais as ações de fomento à pesquisa e desenvolvimento (P&D), integrando setor privado, academia, institutos de pesquisa e o setor público.

Em um cenário de juros baixos, o venture capital se torna mais atrativo. É um fator que pode incentivar o crescimento de diversas startups, ampliando a inovação e a produtividade. 

Para Mateus Starling, da Apex Partners, o investimento em startups e empresas inovadoras vem sendo observada nos países desenvolvidos e deve inspirar os brasileiros: ‘’Nos EUA, por exemplo, os investimentos em startups predominam nas áreas de biomedicina e inteligência artificial, enquanto o Brasil ainda fala de soluções tecnológicas para finanças pessoais. Acreditamos que no Brasil entramos em um estágio em que o mercado está de olho em iniciativas em saúde, educação e marketing digital’’.

Uma das maiores quedas entre os fatores analisados pelo Ranking está relacionada às patentes, que precisam de políticas melhores. No geral, a nota do estado foi de 42,4, na 13ª colocação.

Infraestrutura

A deficiência de infraestrutura é um dos principais desafios para a melhora da competitividade do País, pois exerce, entre vários outros, papel fundamental na circulação do setor produtivo e na atração de investimentos.

Nesse sentido, o estado aparece bem quando comparado ao nível nacional, ficando em 5º lugar. No entanto, apresenta uma pontuação que indica haver muito o que melhorar: 58,5 pontos.

Além do baixo nível de investimentos, a explicação para as carências da infraestrutura pode ser encontrada também na má alocação dos recursos públicos, bem como na deficiência das políticas regulatórias para os diferentes segmentos de infraestrutura.

No levantamento observa-se a necessidade de melhora na qualidade de rodovias, mobilidade urbana, qualidade e custo de serviços de telecomunicações, energia, saneamento, voos e combustíveis.

Mas o atual cenário de juros baixos pode ajudar na atratividade de investimentos do mercado de capitais nestes setores, sendo uma oportunidade histórica.

Educação

O ES figurou na 7ª colocação com 59,9 pontos em relação à educação, mas registrou pioras na taxa de frequência líquida do ensino fundamental, assim como na taxa de atendimento do ensino infantil. Essas fases do ensino merecem mais atenção por parte do poder público, uma vez que são bases essenciais para o desenvolvimento dos indivíduos e da formação das próximas gerações.

Vale lembrar que o Espírito Santo lidera desde 2017 o Fundeb no Ensino Médio, mas para melhorar a competitividade ainda mais há muitas reformas necessárias no setor.

Segurança Pública

A segurança pública é requisito para um bom ambiente de negócios. Entretanto, o ES apresentou uma das maiores quedas do país em relação à 2019 nesse quesito, caindo cinco posições e ficando na 15ª colocação. Entre os quesitos com piora, estão o aumento das prisões sem condenação, o déficit carcerário, as mortes a esclarecer, a segurança pessoal e a segurança patrimonial. Para exemplificar, segundo dados do Sejus, o estado conta com mais de 9 mil detentos além da capacidade.

Conclusão

O estudo evidenciou melhora na competitividade do ES, um dos estados com melhor ambiente de negócios do país. Dessa forma, se há diversos pontos a serem melhorados, as instituições capixabas devem – com coordenação – aprimorar suas políticas com o setor público e o setor privado, prezando por mais eficiência.

Por outro lado, o cenário de juros no menor patamar histórico deve atrair o mercado de capitais para investir em diversos projetos que contribuam para aumentar ainda mais a competitividade do Espírito Santo — uma oportunidade única que não podemos desperdiçar.

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