Visão do Estrategista: mercado já precificou parte do risco fiscal

Os últimos trinta dias foram marcados pela diminuição de incertezas no cenário internacional, o que significa que o foco para uma boa performance no mercado acionário brasileiro passa a ser mais interno. Todas as atenções estão voltadas para o risco fiscal, com o mercado inclusive já tendo o precificado parte disso a partir do aumento de juros futuros. 

A despeito disso, mantemos os fundamentos relacionados à continuidade da agenda de reformas. Apesar de cautela, o cenário apresentou ainda oportunidades de alocações interessantes, havendo destaque para ativos que devem performar bem tanto em cenário mais otimista em 2021 quanto de deterioração. Por fim, destacamos o início da volta do investidor estrangeiro para a bolsa. 
 

Cenário internacional 

O candidato democrata Joe Biden venceu o republicano Donald Trump na disputa da presidência dos Estados Unidos. A despeito de ainda não haver confirmação, os republicanos devem manter maioria no Senado, o que tranquiliza o mercado acionário

Os indicadores apontam retomada em V da economia americana, com crescimento recorde de 33,1% no terceiro trimestre. Além disso, é esperado novo pacote de estímulos para ajudar na retomada da economia americana, que com a maioria republicana no Senado, deve ser mais responsável fiscalmente. Por fim, não obstante os planos de Biden de aumentar tributação de empresas, a expectativa é que o não predomínio no Congresso americano restrinja o pior cenário de desvalorização dos ativos. 

Na Visão do Estrategista de Outubro alertamos que o verão europeu aumentou o contágio da Covid-19, representando uma segunda onda da pandemia, mas que ele se manifestaria de forma menos intensa, tanto em efeitos sanitários quanto econômicos. Houve apreensão no mercado com a decretação de novos lockdowns. em especial na Itália, Espanha, França e Reino Unido. Contudo, as restrições estão muito aquém das verificadas na primeira onda: o funcionamento das empresas está permitido, havendo restrições de circulação em horários. O principal setor prejudicado será o de restaurantes, bares e cinemas. 

Há expectativas de juros baixos pelos próximos quatro anos como ferramental para estimular a economia tanto pelo Federal Reserve (Banco Central dos Estados Unidos), quanto do Banco Central Europeu. Isso deve influenciar os estrangeiros para alocarem recursos em mercados emergentes, isto é, o Brasil pode ser beneficiado desde que faça seu dever de casa.  

Por fim, o anúncio da Moderna de que sua vacina tem 95% de eficácia gerou alta nas ações, havendo ainda outras 10 vacinas em testes clínicos. 
 

Cenário doméstico 

Houve entrada de R$ 5 bilhões em outubro e nos primeiros dez dias de novembro, o ingresso líquido de recurso estrangeiro montou R$ 12,7 bilhões. Somente no dia 10, a entrada líquida foi de R$ 4,9 bilhões, maior aporte diário desde agosto de 2011. No ano, o fluxo ainda é negativo em R$ 72 bilhões, mas a inversão de tendência chama atenção e sugere prováveis novas entradas à frente porque dificilmente são montadas grandes posições em poucos dias. 

Vale lembrar que o Ibovespa em dólar caiu 17% desde agosto, estando muito barato para investidores estrangeiros. Isso pode gerar um rali de aumento de preços neste final de ano. 

O grande risco e entrave para tanto é o fiscal, conforme apontou a Ata do Copom, que pormenorizou a alta inflacionária concluindo que esta é temporária. 

Desde agosto houve descolamento do desempenho acionário do mercado doméstico com o externo em virtude de incertezas fiscais, com um déficit primário de 12%. A solução passa pela aprovação da PEC 186, a chamada PEC Emergencial, que possibilita o corte de despesas. Não há como ter um orçamento factível em 2021 sem sua prévia aprovação. Nos últimos 50 dias, no entanto, houve uma paralisia política na Câmara dos Deputados em virtude das eleições municipais. O presidente da Câmara dos deputados Rodrigo Maia tem se mostrado um grande defensor da medida. Apesar disso, tratava-se de algo já esperado de acordo com o nosso cronograma. Após o fim do segundo turno, isso deve voltar a avançar. 

A fala do ministro da economia Paulo Guedes no sentido de que em uma segunda onda seria possível uma prorrogação do estado de calamidade também pode ser interpretada como “não havendo descontrole sanitário, não teremos novos gastos”. 

Alocação de ativos 

Apesar do call de cautela, não mudamos o cenário base para alocações de ativos porque o mercado já precificou parte do risco fiscal desde agosto. Por um lado, parlamentares parecem ainda não ter compreendido a gravidade da situação fiscal. Não à toa houve alta considerável nos juros futuros: os juros futuros de 2029 na pré-covid estavam em 6,5%, e agora está em 8%. Há, portanto, premium para quem entra na bolsa agora.  

É importante enfatizar que não resolvendo a questão fiscal, o Ibovespa não avançará. 

Mas mantemos o cenário base de continuidade de reformas pela manutenção do discurso, por haver um congresso mais articulado com governo e por 2021 não haver eleições, isto é, um calendário mais cheio de sessões no ano. 

Neste momento, há de se aproveitar para escolher ativos que tendem a performar bem independente desse cenário mais positivo, e que por outro lado vão trazer um tipo de diversificação como proteção para carteira. 

Por nossa característica de preservação patrimonial, estamos com cautela em não aumentar a exposição em renda variável, mas aproveitando oportunidades no mercado, como debêntures incentivadas — que são ativos que remuneram IPCA acrescido de uma taxa pré. Há títulos disponíveis com classificação de crédito duplo A+ pelas agências de rating, permitindo liquidez. 

Um ativo com IPCA +5 com juros a 2% traz um retorno considerável, que ainda é bastante vantajoso ainda que com Selic a 3,5%. São títulos com a melhor entrega para investidores conservadores, com taxa atrativa de retorno e segurança. 

Aproveitando que a Selic deve subir em 2021, empresas estão trocando dívidas para alongar. Nesse sentido, há boas oportunidades em certificados de recebíveis em agro (CRAS), que são títulos de renda fixa com vencimento mais curto, de cinco a sete anos. 

Há ainda todo um racional para participar ainda de fundos de Participações em Infraestrutura (FIPs), que não tem prazos para liquidação, mas por serem negociados em bolsa são bastante líquidos. 

Apresentamos nas últimas semanas para nossos clientes a entrada em dois FIPs de infraestrutura ligadas à energia que estão em IPO ligados ao IPCA+. O caso do apagão no Amapá ilustra demanda pelo mercado energético no Brasil, algo que está em nossa tese de investimentos. Em ambos, a demanda superou a oferta em mais de três vezes, o que impôs rateio das cotas e evidenciou a busca de investidores por novos ativos, com os juros reais perto de ficar zero no Brasil. Isso indica que o valor do ativo deve subir ao passar a ser negociado em bolsa. 

Disclaimer: Esta apresentação tem como único propósito fornecer informações e não constitui ou deve ser interpretada como uma oferta, solicitação ou recomendação de compra ou venda de qualquer instrumento financeiro ou de participação em qualquer estratégia de negócio específica. Essa apresentação é um documento de cunho meramente informativo, não configurando análise de valores mobiliários nos termos da Instrução CVM Nº 598, e não tendo como objetivo a consultoria, oferta, solicitação de oferta e/ou recomendação para a compra ou venda de qualquer investimento e/ou produto específico.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *