Carta do Economista: vacinas e pacote de ajuda nos EUA mantém a valorização dos ativos

Carta do economista janeiro

Dezembro deu continuidade ao cenário de valorização dos ativos, tanto no mercado internacional quanto no brasileiro. Vários fatores contribuíram. Primeiro, as vacinas foram liberadas para uso nos EUA, Reino Unido e União Europeia (UE), iniciando a vacinação. Segundo, UE e Reino Unido fecharam um acordo comercial, finalizando o Brexit.

Em terceiro, pelo lado monetário, os bancos centrais mantiveram inalteradas suas políticas. Do lado fiscal, o Congresso dos EUA aprovou um novo pacote que fornecerá ajuda para combater a Covid e manterá o governo funcionando.

No Brasil, ajudando o ambiente externo, os dados continuam indicando a manutenção da recuperação econômica. Além disso, apesar das ameaças, não foram votadas as matérias que poderiam afetar o risco fiscal, como a PEC 391 e o substitutivo das PECs 186, 187 e 188.

Neste cenário, os ativos tiveram forte valorização. No Brasil, além disso, com a entrada de capital estrangeiro, houve novo mês de valorização do real e de queda do risco país.

Mercado Externo

Vamos começar analisando o desempenho econômico dos maiores mercados. Em dezembro, assim como no mês anterior, as medidas de isolamento social adotadas em fins de outubro continuaram a afetar as economias da Zona do Euro e do Reino Unido.

Assim, embora tenham indicado melhora em dezembro, os índices dos gerentes de compras (PMIs) de serviços e agregados da Zona do Euro e do Reino Unido continuaram abaixo de 50, sinalizando contração no setor (ver Gráfico I para o setor de serviços na Zona do Euro).

Em relação à China, os dados continuam indicando crescimento. Os dados da produção industrial liberados em dezembro sinalizaram aceleração da economia na China.

Já nos EUA a economia agregada e o setor de manufaturas continuam crescendo. Mas o setor de serviços e a criação de empregos começam a sofrer os impactos do recrudescimento da pandemia.

Como podemos ver no Gráfico II, o PMI de serviços de dezembro dos EUA teve queda, ficando em 55,3, sinalizando que o setor continua em expansão, embora com ritmo menor. Por outro lado, a criação de empregos ficou em 245 mil em novembro, quando eram esperados 469 mil.

Em síntese, em dezembro os dados das maiores economias mundiais indicam crescimento no setor de manufaturas. Enquanto isso, o setor de serviços sofre retração ou perda de ritmo onde houve recrudescimento da pandemia, como Zona do Euro, Reino Unido e EUA. Como consequência, nestas regiões a recuperação da economia perde ritmo.

Em dezembro, outros fatores, além da performance econômica, ajudaram a melhorar o cenário mundial. Primeiro, e mais importante, várias vacinas foram liberadas para uso pelos órgãos reguladores da União Europeia, Reino Unido e EUA. Nestas áreas a vacinação da população já começou.

Segundo, o Congresso americano aprovou e o presidente sancionou após alguma relutância, um pacote com gastos de US$ 2,3 trilhões. Destes, US$ 900 bilhões para combater os efeitos da Covid e a outra parte para financiar o governo americano.

Finalmente, como esperado, os principais bancos centrais do mundo, em sua última reunião do ano, reafirmaram suas políticas monetárias atuais para manter juros baixos e crédito para o próximo ano.

Mercado Interno

Como sempre, vamos começar listando as expectativas do Boletim Focus da última semana de dezembro. O crescimento esperado para 2020 é de -4,4% (há um mês era de -4,5%). Já a inflação esperada continua com forte alta. Em fins de novembro estava em 3,65% e fechou dezembro em 4,39%. Já a Selic, como esperado, termina o ano em 2%.

Em dezembro, o mercado financeiro doméstico manteve a tendência de valorização dos ativos e de redução do risco país (Gráfico III). Três fatores podem explicar este comportamento. Primeiro, a economia brasileira continua em recuperação. Por exemplo, o PIB do 3º trimestre teve alta de 7,7%, a criação de empregos foi de 414,5 mil em novembro. Segundo, a liberação e o início da vacinação contra a Covid na União Europeia, Reino Unido e EUA. Finalmente, o Congresso vai entrar em recesso sem votar matérias que poderiam provocar mais gastos públicos e mais risco fiscal, como a PEC 391.

Neste cenário de liberação das vacinas e o menor risco fiscal, continuamos atraindo capital estrangeiro e o risco Brasil mantém a queda iniciada em novembro (ver Gráfico III).

Voltemos agora para as perspectivas para os próximos meses. Como temos repetido nas últimas cartas, os preços dos ativos brasileiros ainda têm espaço para valorização. Para tanto, é preciso (i) contenção da pandemia e manutenção da reabertura da economia; (ii) manutenção da estabilidade política interna; (iii) avanço das reformas para melhorar os fundamentos macroeconômicos e o ambiente de negócios.

Já discutimos o item (i) acima quando falamos das vacinas. Quanto ao item (ii), teremos eleição para presidente da Câmara, onde o governo escolheu candidato e vai se opor ao candidato do grupo do atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia. O resultado desta disputa pode trazer instabilidade política ao dividir a base do governo.

Passemos para o item (iii). A partir de agosto fica claro que o governo não quer votar a Reforma Administrativa e as PECs 186, 187 e 188, além de flertar com a flexibilização do teto dos gastos, aumentando o risco fiscal. Além disso, o Congresso flertou com medidas de aumento do déficit público, como a PEC 391. Ou seja, as reformas não andaram e aumentou o risco fiscal e a incerteza.

Antes de encerrarmos, voltemos nossa atenção para o risco inflacionário. O IPCA teve alta de 0,89% em novembro e de 4,31% em 12 meses, ficando acima da meta. Mas a valorização do real a partir de novembro pode estar ajudando. O IGP-M subiu 0,96% em dezembro (alta de 3,28% em novembro). Em síntese, os dados de inflação em dezembro continuam preocupando.

Renda Fixa: EUA

Em 2020, o retorno dos títulos americanos caíram e ficaram baixos por duas razões. Primeiro, o agressivo programa de compra de títulos do Federal Reserve (Fed) para manter os juros baixos e o crédito abundante nos EUA. Segundo, a forte compra dos investidores em busca de proteção.

Entretanto, como podemos ver no Gráfico IV, os retornos dos títulos do governo americano tiveram pequena alta no 2° semestre, à medida que cai a incerteza com a pandemia e a economia continua em recuperação. Estes aumentos tenderiam a acentuar com as notícias das vacinas. Mas a agressiva política monetária do Fed deve impedir maiores aumentos.

Em relação às perspectivas para os próximos meses, não há mudanças em relação às últimas cartas. Temos três fatores a considerar. O primeiro é a incerteza gerada pela pandemia, que continua caindo com o início da vacinação nas maiores economias. Esta redução da incerteza tende a reduzir a demanda por proteção e pelos títulos dos EUA.

O segundo fator é a política de compra de ativos implementada pelo Fed. Como informado pelo Fed, esta política será mantida nos próximos meses, evitando que os juros venham a ter maiores altas, mesmo com a queda da demanda por proteção.

O terceiro fator é o déficit público americano que aumenta a oferta de títulos públicos, podendo elevar os retornos. Mas até o momento, os efeitos do déficit foram contrabalançados pela demanda privada e/ou pela agressiva política de compra de ativos do Fed.

Renda fixa: Brasil

Desde agosto, as propostas defendidas pelo governo e o abandono das reformas no Congresso dominaram o cenário doméstico, elevando o risco fiscal e o retorno pago pelos títulos públicos (Gráfico V). Porém, a partir de novembro, o anúncio e a liberação para o uso das vacinas dominou o cenário externo que, combinado com a boa recuperação da economia doméstica, levou à interrupção desta tendência de alta (Gráfico V).

Com relação às perspectivas para os próximos meses, dependemos: (i) do comportamento da pandemia e da recuperação econômica; (ii) do risco fiscal; (iii) do risco de inflação; (iv) da instabilidade política.

Como já discutimos o item (i) acima, passemos a analisar os itens (ii)-(iii). Quanto maior o risco fiscal e o risco inflacionário, maior devem ser os retornos demandados pelo mercado. O atraso na votação das reformas tende a elevar o risco fiscal.

Quanto ao item (iv), a disputa pela presidência da Câmara e do Senado pode dividir a base do governo, gerando maior dificuldade para aprovar as reformas e maior facilidade para aprovar aumento de gastos. Em ambos os casos, aumentam o risco fiscal e de inflação (via desvalorização do real). 

Como sempre enfatizamos, somente com avanços nas reformas, melhorando o ambiente de negócios e os fundamentos econômicos, a economia brasileira pode manter sua recuperação e a queda dos retornos pagos pelos títulos públicos de curto e de longo prazo.

Renda Variável/Ações: EUA

Com a liberalização das vacinas e aprovação do novo pacote de ajudas nos EUA, as bolsas americanas mantiveram a tendência de valorização iniciada em novembro, com os principais índices voltando a bater recordes (Gráfico VI).

As perspectivas de manutenção desta tendência, dada a redução de riscos da pandemia, depende de dois fatores. Primeiro, das políticas fiscais e monetárias. Segundo, da recuperação da economia.

As agressivas políticas monetárias e fiscais nos EUA devem continuar no próximo ano, a despeito da menor incerteza advinda do início da vacinação. Assim, devemos esperar a manutenção da tendência de valorização dos ativos nos próximos meses, embora em ritmo menor, tendo em vista o aumento de preços já ocorridos neste ano.

Renda Variável/Ações: Brasil

A liberação e o início da vacinação nas maiores economias dominou o cenário internacional, reduzindo riscos e incertezas. Este cenário externo, juntamente com a recuperação da economia brasileira, dominou o mercado doméstico, mantendo a tendência de valorização do Ibovespa (ver Gráfico VII).

Como temos sempre apontado, as perspectivas do mercado acionário do Brasil nos próximos meses dependem de alguns fatores: (i) o ritmo de recuperação da economia e o recrudescimento do surto de covid; (ii) estabilidade política no Brasil; (iii) risco fiscal; (iv) risco inflacionário.

Como discutido acima, os fatores dominantes para os próximos meses são (ii)-(iv), tendo em vista a liberação das vacinas. Quanto aos itens (iii)-(iv), não temos sinalização clara do governo para aprovar as reformas e reduzir o déficit fiscal. Além disso, os dados têm apontado inflação elevada e acima do centro da meta.

Quanto ao item (ii), já discutido acima, as eleições no Congresso podem dividir e antagonizar grupos da base do governo, podendo gerar instabilidade política, o que pode atrasar as reformas e aumentar o risco fiscal.

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