Visão do Estrategista: Ano novo, velhos desafios

O mês de dezembro no mercado acionário, como pode ser visto pela nossa visão do estrategista, foi marcado pela continuidade da valorização dos ativos. Isso, diante do otimismo global causado pelo início da vacinação no mundo, indicadores econômicos favoráveis e calmaria do mercado político. Entretanto, em janeiro a bolsa brasileira vem apresentando volatilidade. Bateu o recorde nominal de 125 mil pontos na primeira semana do ano para reverter a partir de então. 

Se a tendência de entrada de capital estrangeiro iniciada em novembro continuou forte na primeira quinzena de janeiro, por outro lado, o novo ano será marcado por velhos riscos domésticos. 2020 fechou com uma inflação acima do centro da meta, mesmo diante de um ano de recessão econômica. Além disso, o risco fiscal, o orçamento de 2021 que ainda não foi votado e os riscos sanitários de uma segunda onda voltaram a impactar negativamente no preço dos ativos.

Conforme falamos na Visão do Estrategista de Novembro, o mercado já precificou parte desses riscos a partir do aumento de juros futuros. Há tendência de um cenário político morno com o recesso de final de ano e a disputa pela presidência da Câmara e do Senado. Com isso, as semanas até o início de fevereiro devem ser de calmaria no mercado.

Diante disso, estamos orientando clientes a buscarem investimentos em ativos com liquidez para se preparar em caso de tempestades e turbulências em 2021.

Mercado Internacional

Há incertezas no mundo relacionadas ao recrudescimento da pandemia e a possibilidade de mutações da Covid-19. Estas aumentam a incerteza sanitária, que por sua vez pode gerar novos fechamentos que prejudiquem a retomada econômica.

Houve perda de ritmo no setor de serviços nos países com recrudescimento nos Estados Unidos, Reino Unido e na Zona do Euro. Já a China tem apresentado crescimento estável em manufaturados e serviços.

Por outro lado, os Estados Unidos já vacinaram cerca de 6% de sua população. E o desenvolvimento do início da vacinação tende a reduzir o risco de futuras interrupções da atividade econômica.

O pacote aprovado no Congresso Americano e sancionado por Donald Trump em meados de dezembro melhorou as expectativas. Mas está em discussão um novo pacote de Joe Biden, prevendo estímulos adicionais que totalizam US$ 1,9 trilhão.

Ele incluiria mais de US$ 400 bilhões para reforçar a resposta ao vírus e a distribuição de vacinas contra a Covid-19, US$ 350 bilhões para ajudar estados e municípios a superarem os déficits orçamentários, US$ 1 trilhão em auxílio direto às famílias, US$ 440 bilhões para pequenas empresas e comunidades atingidas pela pandemia, cheques no valor US$ 1,4 mil para os norte-americanos, superando os de US$ 600 emitidos no último pacote do Congresso e US$ 400 de auxílio-desemprego por semana.

Por outro lado, Biden tem defendido dobrar o salário mínimo. Essa medida pode gerar incertezas para empresas que ainda se recuperam dos impactos da pandemia e aumentar o desemprego.

O Senado americano agora contará com predomínio democrata após a eleição de dois senadores do partido pelo estado da Geórgia. Há empate de 50 votos para cada partido na casa, mas o voto de minerva é da vice-presidente dos Estados Unidos Kamala Harris.

Mercado Doméstico

Até 20 de janeiro, houve entrada de R$ 21 bilhões de capital estrangeiro, continuando um processo iniciado em novembro com intensidade similar. Com a liquidez global, o movimento tem sido incomum, já que o capital estrangeiro para janeiro historicamente é mais devagar. Vale lembrar que o Ibovespa em dólar é visto como barato, no patamar de 23 mil pontos, ante 17 mil pontos em novembro e 29 mil no pré-pandemia.

O recesso do Congresso acalmou os ânimos políticos entre final de dezembro e início de janeiro. Interrompeu a análise de propostas polêmicas que poderiam atrapalhar o mercado. Paralelamente, os dados econômicos de recuperação e clima externo eram positivos até alguns dias, ajudando na valorização dos ativos.

O risco país caiu para 150 pontos (antes da pandemia, estava em 100). Todavia, as incertezas no Brasil continuam as mesmas: risco fiscal e tributário. Com isso, há a possibilidade de aumento de impostos a partir da recriação da CPMF e tributação de dividendos dentro do âmbito da reforma tributária.

Já a inflação de 2020 foi superior a de 2019, mesmo com o país em recessão. O déficit fiscal de 2021 projetado é de R$ 247 bilhões, quase o dobro do projetado para o ano de 2020 antes da pandemia.

As perspectivas do mercado são de um aumento da Selic a partir do 2° semestre, fechando o ano em torno de 3,75%. Contudo, se não houver a aprovação de reformas, é possível que a Selic aumente mais rapidamente, devido ao risco fiscal. Além de gerar desconfianças com o aumento de juros futuros. Por um outro lado existem apostas na direção de um crescimento do PIB em 2021 maior que o potencial pelo bom posicionamento do Brasil um novo bom ciclo de alta das commodities, podendo fazer com que os juros subam até 5%.

Aspecto político interno

Após o recesso, a inércia legislativa que foi benéfica a partir de dezembro acabará na primeira semana de fevereiro. Apoiados pelo governo, Arthur Lira (Progressistas) e Rodrigo Pacheco (Democratas) estão despontando como os favoritos para vencer a presidência da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. 

O mercado tem analisado como positivo eventual vitória de ambos, pois isso sinalizaria força do governo e capacidade de articulação, o que por sua vez se entende que pode ajudar na tramitação da agenda de reformas em 2021, em especial a PEC Emergencial e a reforma administrativa. O candidato Baleia Rossi tem sido visto com mais preocupações, pelas negociações feitas com partidos de esquerda.

Por fim, o principal risco relacionado ao fiscal está ligado ao recrudescimento recente da pandemia. Assim, pode levar a novos fechamentos e medidas de distanciamento social, e a indefinição quanto a um plano nacional de vacinação. Essas questões podem levar a uma possível guinada e um ambiente fértil para nova decretação de estado de calamidade a fim de possibilitar um novo auxílio emergencial que fure a regra do teto de gastos.

Alocação de ativos

Em linhas gerais, o cenário trabalhado pelas gestoras para 2021 é de dólar mais fraco, ativos de risco em alta, crédito forte, juros em inclinação na curva longa e commodities em alta. Vale endossar que dólar fraco não significa que o real estará necessariamente mais forte.

Em contrapartida, o fundamento de qualquer análise para exposição em renda variável dependerá do fiscal. Apesar do cenário doméstico exigir cautela, acredita-se que pela composição do Ibovespa, se beneficiará do cenário global (alta exposição a commodities e papéis de valor, com menor proporção de papéis ligados à tecnologia). Entre os fundamentos que indicam que estamos no início de um novo ciclo de commodities, estão a demanda chinesa, crescente e sólida, o PIB per capita da Índia em crescimento e a taxa de juros reais negativas no mundo.

Para quem tem posição maior do que a comum em renda variável e aproveitaram os ganhos dos últimos três meses, temos entendido que faz sentido uma redução para realizar lucros. Isso se deve em virtude dos riscos domésticos e pelo fato do movimento de alta ter vindo mais em virtude do excesso de liquidez que trouxe o capital estrangeiro.

Já para quem ainda pretende formar posições em renda variável, dadas as definições que teremos em fevereiro, temos aconselhado que a alocação em capital de renda variável seja feita em duas etapas. Assim, parte desses recursos aguardam em fundos ligados ao CDI para caso haja novas baixas nas próximas semanas realizar a entrada em patamares mais baixos.

Alternativas

Diante da possibilidade de escalada inflacionária, é de se analisar a possibilidade de aumentar a exposição da carteira em crédito privado e títulos públicos.  É possível que títulos de crédito privado pós-fixado com prazos curtos estejam com alto custo de oportunidade. Assim, sendo rentável a saída do título mesmo com pagamento de deságio caso haja alocação em ativos que pagam IPCA + 4 de ativos AAA.

A assimetria para uma alta da taxa de juros, seja por uma deterioração do risco fiscal, seja por uma potencial surpresa no crescimento do PIB, passa a tornar atrativo a volta das aplicações em CDI. Aproveitar as boas taxas ainda vigentes podem gerar bom retornos nominais, e as raras alocações em ativos CDI + Pré, irão se valorizar.

A última temporada de balanços das empresas veio melhor do que o esperado. Com isso, há possibilidade de algumas empresas surpreenderem na divulgação do 4º trimestre de 2020 no sentido de haver revisões de lucro para o alto.

Por fim, para hedges, estamos analisando a entrada maior em ouro e dólar. Mas quem possui perfil mais arrojado pode optar ainda por fundos ligados a criptomoedas em fundos seguros operacionalmente. Ou ainda na visão de “comprar” a tecnologia mirando o longo prazo.

Disclaimers

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