Carta do economista: valorização dos mercado internacionais e desvalorização do mercado brasileiro com incertezas políticas

Carta do economista fevereiro

Em janeiro o mercado brasileiro e o mercado internacional descolaram. Lá fora, o fim das disputas e a posse de Biden, a possibilidade de novo pacote fiscal de ajuda nos EUA e o avanço na vacinação ditaram o tom no mercado internacional (embora, nos últimos dias de janeiro, parte da valorização dos ativos foi devolvida).

No Brasil, como esperado, a disputa para a presidência da Câmara e do Senado gerou promessas de mais gastos por parte dos candidatos, ameaçando o frágil equilíbrio fiscal no Brasil. Estas promessas, combinadas com o recrudescimento da pandemia e o fim do coronavaucher dominaram o cenário doméstico, gerando aumento de incertezas.

Neste cenário, as bolsas americanas continuaram com a tendência de valorização até fins de janeiro, quando entram num processo de correção. Enquanto isto, os ativos brasileiros tiveram queda de preços. A Bovespa, depois de um bom desempenho nos primeiro dias do ano, passa a cair e fecha o mês de janeiro no negativo. Ao mesmo tempo, os juros futuros, o dólar e o risco país voltam a subir

Mercado Externo

Vamos começar analisando o desempenho econômico dos maiores mercados. As grandes economias que apresentaram recrudescimento da Covid em nov/dez, como Reino Unido e Zona do Euro, continuam com o desempenho do setor de serviços sendo afetado negativamente, reduzindo o ritmo de recuperação da economia agregada.

Os índices dos gerentes de compras (PMI) de serviços e agregados da Zona do Euro e do Reino Unido continuam abaixo de 50,  sinalizando contração no setor (ver Gráfico I para a Zona do Euro).

Em relação à China, os dados continuam indicando aceleração do crescimento. O PIB da China aumentou 6,5% no 4º trimestre e fechou 2020 com crescimento de 2.3%, como podemos ver no Gráfico II. Além disso, a produção industrial teve crescimento de 7,3% em dezembro, também  sinalizando aceleração.

Já nos EUA a economia continua em recuperação. O PMI de serviços de janeiro dos EUA volta a subir, sinalizando que o setor volta a acelerar, depois da queda de dezembro. Além disso, o PIB americano teve crescimento de 4% no quarto trimestre de 2020, fechando o ano com queda de 3,5% (Gráfico III).

Mas a criação de empregos nos EUA sofreu com o recrudescimento. Depois de criar 245 mil empregos em novembro, a economia dos EUA perdeu 145 mil empregos em dezembro.

Em janeiro, tivemos outros fatores, além da performance econômica, afetando   o cenário mundial. Primeiro, a vacinação nas maiores economias continuou a manter as expectativas positivas para 2021.

Embora, em fins de janeiro, incertezas quanto ao ritmo da vacinação e as mutações da Covid tenham influenciado na forte correção dos preços.

Segundo, como esperado, os principais bancos centrais do mundo (Fed, BCE, etc), nas reuniões de janeiro, reafirmaram suas políticas monetárias atuais para manter juros baixos e crédito para o próximo ano.

Finalmente, o governo Biden começa a discutir com o Congresso um novo pacote de ajuda fiscal no valor de US$ 1,9 trilhões, tentando ajudar as famílias e as empresas, além de prover recursos para acelerar a vacinação nos EUA. Mas ainda existe incerteza quanto à sua aprovação.

Mercado Interno

Como sempre, vamos começar listando as expectativas do Boletim Focus da última semana. O crescimento esperado para 2021 é de 3,49%. Já a inflação esperada continua em alta. Em fins de dezembro, a inflação esperada para 2021 estava em 3,34%, mas fecha janeiro em 3,6%. Já a Selic esperada, que em fins de dezembro estava em 3.13%, fecha janeiro em 3,5%.

Em janeiro, os dados liberados continuam a indicar que a economia brasileira está em recuperação.

Os índices dos gerentes de compra de  manufaturas e serviços no Brasil em dezembro ficaram em 61,5 e 51,1, respectivamente, indicando que a economia continua em expansão. Já a produção industrial em novembro teve expansão de 1,2% em termos mensais e 2,8% em termos anuais. Na contramão dos indicadores anteriores, as vendas no varejo tiveram queda mensal de 0,5% em novembro, já refletindo o fim próximo do coronavaucher.

A despeito destes dados econômicos, da menor incerteza com o início da vacinação e da forte entrada de capital estrangeiro, os preços dos ativos domésticos e o Ibovespa tiveram forte queda em janeiro. Ao mesmo tempo, o risco Brasil, que vinha caindo desde de novembro, inverte a tendência e volta a subir (ver Gráfico IV). 

Para entender o comportamento do mercado financeiro em janeiro, devemos voltar nossa atenção para os fatores que vão influenciar as perspectivas para os próximos meses. Como temos repetido nas últimas cartas, os preços dos ativos brasileiros dependem: (i) da contenção da pandemia; (ii) da manutenção da estabilidade política interna; (iii) do avanço das reformas, reduzindo o risco fiscal e inflacionário.

Quanto ao item (i), o início da vacinação no Brasil e no mundo reduziu a possibilidade de novos recrudescimentos e fechamentos das cidades, favorecendo a recuperação da economia e a valorização das empresas.

Quanto ao item (ii), como esperado, a eleição para o presidente da Câmara tem gerado instabilidade e aumento do risco fiscal, rachando a base do governo e levando ambos os candidatos a flertarem com o aumento de gastos. Com isso, aumenta a pressão de queda dos preços dos ativos domésticos.

Quanto ao item (iii), as reformas não andaram e aumentaram o risco fiscal, gerando queda nos preços dos ativos. Isso porque é claro o desinteresse do governo no avanço das principais reformas (reforma administrativa e as PECs 186, 187 e 188).

Antes de encerrarmos, voltemos nossa atenção para o risco inflacionário. O IPCA teve alta de 1,35% em dezembro e de 4,5% em 2020. Está acima do centro da meta, apesar da forte recessão, e continua preocupando. 

Renda Fixa: EUA

Desde o início da pandemia, o retorno dos títulos americanos foi afetado por dois fatores. Primeiro, o agressivo programa de compra de títulos do Federal Reserve (Fed)  para manter os juros baixos e o crédito abundante nos EUA. Segundo, a forte compra dos investidores em busca de proteção.

Assim, como podemos ver no Gráfico V, os retornos dos títulos do governo americano tiveram alta no segundo semestre, à medida que cai a incerteza com a pandemia e a economia dos EUA continua em recuperação. A partir de novembro estes aumentos se fortalecem com as notícias das vacinas (Gráfico V).

Em relação às perspectivas para os próximos meses, não há mudanças em relação às últimas cartas. Temos três fatores a considerar. O primeiro fator é a incerteza gerada pela pandemia, que vinha caindo com o início da vacinação, reduzindo a demanda por proteção e elevando os retornos (ver o rápido aumento, a partir de novembro). Mas a lentidão da vacinação e as mutações da Covid podem alterar este cenário.

O segundo fator é a política de compra de ativos implementada pelo Federal Reserve. Como informado pelo Fed em vários comunicados, esta política será mantida nos próximos meses, evitando que os juros venham a ter altas.

O terceiro fator, é o grande crescimento do déficit público americano com os pacotes de ajuda fiscal já aprovados e em análise. Estes pacotes aumentam o déficit e a oferta de títulos públicos, o que tende a elevar os retornos. Mas, até o momento, os efeitos do déficit foram contrabalançados pela demanda privada e/ou pela agressiva política de compra de ativos do Fed.

Renda fixa: Brasil 

Desde agosto de 2020, o risco fiscal vem aumentando, à medida que fica claro o abandono das reformas pelo governo e as frequentes tentativas de aumentar os gastos. Com isso, aumentam os retornos pagos pelo tesouro brasileiro, como podemos ver no Gráfico VI.

Esta tendência de aumento dos retornos foi interrompida em novembro e dezembro com o início da vacinação.

Mas o clima de incerteza volta a dominar em janeiro, com a eleição no Congresso, levando ao aumento do risco Brasil, dos juros futuros e dos retornos pagos pelo Tesouro (Gráfico VI).

Com relação às perspectivas para os próximos meses, dependemos: (i) do comportamento da pandemia e da recuperação econômica; (ii) da instabilidade política; (iii) da votação das reformas reduzindo o risco fiscal e inflacionário.

Já discutimos o item (i) acima. Os itens (ii)-(iii) estão muito interligados. Assim, a disputa pela presidência da Câmara e do Senado deve gerar incertezas e maior instabilidade política, dificultando a aprovação das reformas e facilitando a aprovação de aumento de gastos. Em síntese, quanto maior a incerteza e a instabilidade política, maior devem ser os riscos fiscal e inflacionário, puxando os retornos dos títulos públicos (e os juros futuros).

Renda Variável/Ações: EUA

Janeiro seguiu a tendência de valorização das bolsas americanas, fortalecidas com a liberação e o início da vacinação em novembro e o ambiente externo (discutido acima). Como podemos ver no Gráfico VII, os principais índices das Bolsas dos EUA voltaram a bater recordes.

Mas na última semana do mês a incerteza quanto à rapidez da vacinação, os efeitos das mutações da Covid e os preços bastante esticados levaram a uma forte correção dos preços (Gráfico VII).

As perspectivas de manutenção da tendência de valorização dependem dos efeitos das mutações sobre a eficiência das vacinas, da manutenção das atuais políticas fiscais e monetárias e da recuperação da economia.

A  economia continua em recuperação e as agressivas políticas monetária e fiscal nos EUA devem continuar em 2021, como apontam as decisões do Fed e o novo pacote do governo Biden. Assim, se os efeitos das mutações forem pequenos, devemos esperar manutenção da tendência de valorização, mas em ritmo menor, tendo em vista o aumento de preços já ocorridos em 2020.

Renda Variável/Ações: Brasil

Devido à maior incerteza e instabilidade fiscal com as eleições no Congresso, os ativos domésticos tiveram queda em janeiro (ver Gráfico VIII).

Como discutido acima, para os próximos meses, as perspectivas do mercado acionário do Brasil dependem: (i) da recuperação da economia e do recrudescimento do surto de Covid; (ii) da estabilidade política; (iii) do avanço das reformas, reduzindo o risco fiscal e inflacionário.

As eleições no Congresso e a falta de apetite do governo pelas reformas podem gerar instabilidade política e maior risco fiscal. Este ambiente tende reduzir o valor das empresas domésticas (além de desvalorizações do real, aumento da inflação e dos juros). 

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