Carta do economista: mudanças nos mercados internacionais e instabilidade no Brasil com interferência nas estatais

Fevereiro foi um mês que seguiu parte das tendências de janeiro. Assim, a nível internacional, China e Estados Unidos continuam a mostrar suas economias em crescimento. Já a Zona do Euro e o Reino Unido (GB) mostram uma economia perdendo ritmo. Entretanto, a inflação sinalizou alta nos EUA, enquanto a vacinação avança mais rapidamente, indicando retorno mais rápido da economia aos padrões pré-crise e maior retorno na renda fixa.

No mercado doméstico, a economia brasileira também continua se recuperando. Mas, o setor de varejo e o setor de serviços perderam ritmo nos últimos meses. A despeito da aprovação da independência do Banco Central do Brasil (BCB) e do marco legal do mercado de câmbio, o mercado doméstico sofreu um forte abalo em fins de fevereiro. Isso devido à intervenção do presidente Jair Bolsonaro na Petrobras e à ameaça de novas intervenções em outras estatais.

Com estas grandes mudanças a nível internacional, parte dos índices das bolsas americanas fecharam fevereiro em queda. Já os ativos brasileiros tiveram queda de preços. O Ibovespa, depois de uma valorização inicial, passou a cair e fechou o mês em queda, influenciado pela atuação de Bolsonaro. Ao mesmo tempo, os juros futuros, o dólar e o risco país voltaram a subir. 

1) Mercado Externo

Como de costume, vamos começar analisando o desempenho econômico dos maiores mercados. As economias europeias que apresentaram recrudescimento da COVID-19 em novembro e dezembro, como o Reino Unido e a Zona do Euro, continuam com o desempenho do setor de serviços sendo afetado negativamente pelas recentes políticas de isolamento.

Os índices dos gerentes de compras (PMI) de serviços da Zona do Euro e da GB continuam abaixo de 50. Mas, enquanto no Reino Unido o PMI aumentou, indicando que o setor começa a reduzir a queda, a Zona do Euro caiu mais, sinalizando maior contração.

Em relação à China, os dados continuam indicando aceleração ou manutenção do crescimento. Depois de fechar 2020 com um crescimento do PIB de 2.3%, o PMI de manufaturas de janeiro ficou estável em 51.5.

Já nos EUA,  tanto o PMI de serviços (58.9) quanto o de manufaturas (58.5) subiram em fevereiro,  sinalizando aceleração do crescimento, como mostra o Gráfico II.

Em contrapartida, a criação de empregos no país continua baixa, gerando apenas 49 mil novos postos de trabalho em janeiro.

Em fevereiro, temos que levar em consideração outros fatores, além da performance econômica, para entendermos o cenário. Primeiro, a vacinação nos EUA e na GB avançaram, devendo permitir o retorno à operação normal da economia.

Segundo, o governo Biden continua a negociar um novo pacote de ajuda fiscal (U$1.9 trilhões). Mas, ainda existe incerteza quanto à sua aprovação.

Terceiro, ao fim do mês, o índice de preços ao produtor nos Estados Unidos e na Alemanha sofreu um repique inflacionário, o que levantou preocupações sobre a manutenção da política monetária e elevou o retorno dos títulos públicos nos EUA.

Entretanto, os principais bancos centrais do mundo (Fed, BCE, etc), continuam afirmando a manutenção de suas atuais políticas monetárias com: juros baixos, crédito abundante e compra de ativos.

1.2) Mercado Interno

Como sempre, vamos começar listando as expectativas do Boletim Focus do último mês. O crescimento esperado para 2021 é de 3.29%. Já a inflação esperada continua em alta. Embora estivesse em 3.6% ao final de janeiro, agora, o nível inflacionário gira em torno de 3.82%. Já a Selic esperada para dezembro de 2021 é 4.0% (há um mês era de 3.5%).

Em fevereiro, vários dados liberados passaram a indicar uma perda do ritmo da economia brasileira. Os índices dos gerentes de compra de serviços e agregado do Brasil em janeiro tiveram queda e ficando em 47.0  e 48.9, respectivamente. Além disso, as vendas do varejo e do setor de serviços tiveram queda mensal de 6.1% e 0.2%, respectivamente.

Na contramão dos indicadores anteriores, a produção industrial e o IBC-Br tiveram alta de 0.9% e 0.64% em termos anuais no mês de dezembro. Finalmente, o IPCA e o IGP-DI de janeiro acumularam alta de 4.56% e de 26.5% em 12 meses, mostrando a inflação acelerando.

Além desses dados, fevereiro foi marcado ainda pela mudança de postura do Governo Bolsonaro em relação à independência das estatais. Isso gerou incerteza e volatilidade no mercado doméstico. Assim, os preços dos ativos e o Ibovespa tiveram forte queda. Ao mesmo tempo, os juros futuros, o dólar e o risco Brasil subiram forte, como mostra o Gráfico III.

Para entendermos as perspectivas para 2021,  devemos voltar nossa atenção para os fatores que temos citado nas cartas dos últimos meses. Os preços dos ativos brasileiros dependem da (o):

  • (i) contenção da pandemia;
  • (ii) manutenção da estabilidade política interna;
  • (iii) avanço das reformas, reduzindo o risco fiscal e inflacionário.

Neste cenário, algumas mudanças podem ser avaliadas. Por exemplo, foram eleitos aliados do Governo Bolsonaro para presidente da Câmara e do Senado, o que reduziu a instabilidade política e a incerteza.

Já o item (iii) apresenta problemas, pois sofreu alterações ao longo do último mês. Por um lado, o governo conseguiu aprovar a independência do BCB, que aguarda sanção do presidente. Aprovou também o marco legal do mercado de câmbio na Câmara.

Por outro lado, a versão da PEC 186 liberada em fevereiro pode gerar uma redução muito pequena de gastos, além de estabelecer as bases para uma nova rodada do auxílio emergencial. Além disso, o governo passa a sinalizar o fim da independência e do uso político das estatais, o que tende a aumentar o risco fiscal (e inflacionário), como aconteceu no Governo Dilma.

Antes de encerrarmos, voltemos nossa atenção para o risco inflacionário.  Em janeiro, o IPCA acumulado em 12 meses voltou a subir, ficando em 4.56%. Ou seja, continua acima do centro da meta da inflação de 2021 (3.75%).

2.1) Renda Fixa: Estados Unidos

No início da pandemia, o retorno dos títulos americanos foram mantidos baixos por dois fatores. O agressivo programa de compra de ativos pelo Fed e pelas compras dos agentes privados em busca de proteção.

Como podemos ver no Gráfico IV, os retornos dos títulos do governo norte-americano tiveram alta no segundo semestre, à medida que a incerteza com a pandemia caiu e a economia do país se recuperou. E estes aumentos se fortalecem com a vacinação.

Finalmente, em fevereiro tivemos uma nova alta dos retornos, fruto do aumento da inflação esperada e da boa recuperação da economia. Além disso, o novo pacote de US$1.9 tri pode acelerar ainda mais a inflação.

Em relação às perspectivas para os próximos meses, devemos considerar quatro fatores. O primeiro, já bastante discutido em cartas anteriores, é o avanço da vacinação. O segundo é a política de compra de ativos implementada pelo Federal Reserve, que vai continuar nos próximos meses.

O terceiro fator é o grande crescimento do déficit público norte-americano com os pacotes de ajuda fiscal. Mas, os efeitos do déficit vinham se contrabalançando pela demanda privada e/ou pela agressiva política de compra de ativos do Fed.

Além disso, o aumento da inflação nos Estados Unidos, capturada por alguns índices, juntamente com a melhora da economia, vem impactando a inflação esperada. Esse aumento da inflação tem levado os agentes a demandarem maiores retornos, que têm subido fortemente. Isso deve impactar tanto o mercado de renda variável quanto os países emergentes.

2.2) Renda fixa: Brasil

Desde agosto de 2020, o principal fator a afetar os retornos dos títulos públicos brasileiros tem sido o risco fiscal, devido à falta de avanço das reformas macro e tentativas de aumento de gastos públicos.

Esse cenário pode ser observado no gráfico abaixo:

O aumento dos retornos foi interrompido brevemente em novembro e dezembro com o início da vacinação. Porém, os retornos voltam a subir a partir de janeiro. Primeiro, devido à eleição no Congresso. Segundo, devido à sinalização do presidente para uso político das estatais.

Com relação às perspectivas para os próximos meses, continuamos dependendo dos fatores listados anteriormente.

A disputa das presidências da Câmara e do Senado elegeu dois aliados do presidente Bolsonaro, reduzindo a incerteza. Mas, o relatório da PEC 186 apresentado em fevereiro deve gerar novo aumento dos gastos públicos, elevando o risco fiscal.

Além disso, a tentativa de usar a Petrobras (e outras estatais) para fins políticos, aumentou ainda mais o risco fiscal e a incerteza na economia.

Em suma, quanto maior a incerteza e o risco fiscal (e inflacionário), maiores devem ser os retornos dos títulos públicos (do dólar e dos juros futuros). Este cenário pode ser exacerbado se os retornos dos títulos públicos dos EUA continuarem aumentando.

3.1) Renda Variável/Ações: Estados Unidos

Mantido o ritmo de crescimento e de vacinação, junto ao aumento dos retornos da renda variável, os principais índices das bolsas americanas perderam a tendência de alta durante o mês de fevereiro.

Em particular, o Nasdaq sofreu mais, pois o retorno aos padrões de consumo pré-crise tende a ter maior efeito sobre a rentabilidade de suas empresas de tecnologias, privilegiadas com a pandemia.

As perspectivas para os próximos meses dependem dos (as):

  • (i) efeitos do avanço da vacinação;
  • (ii) atuais políticas fiscais e monetárias;
  • (iii) recuperação da economia;
  • (iv) inflação.

No geral, a  economia norte-americana continua em recuperação e as agressivas políticas monetárias e fiscais nos Estados Unidos tendem a continuar em 2021. Entretanto, a alta das expectativas de inflação pode forçar o Fed a mudanças de juros antes do que era esperado alguns meses atrás, afetando negativamente as bolsas.

Para os próximos meses, devemos observar o ritmo do crescimento e da inflação nos EUA. Quanto maior o primeiro fator e menor o segundo, melhor o cenário para a valorização das empresas. Essa valorização, contudo, tende a ser em ritmo menor, devido aos ganhos acumulados em 2020.

3.2) Renda Variável/Ações: Brasil

Os dados econômicos, as fracas reformas macroeconômicas propostas e as mudanças do governo em relação às estatais levaram o Ibovespa a novas quedas em fevereiro, como mostra o Gráfico VII.

Para os próximos meses, as perspectivas do mercado acionário do Brasil dependem dos mesmos fatores listados no item 1.2, que refere-se ao mercado interno.

Portanto, se o atual cenário não for alterado e os juros americanos continuarem a subir, a tendência é de maior redução do valor das empresas domésticas, como vem ocorrendo desde janeiro. Assim como, de desvalorizações do real e de aumento da inflação e dos juros futuros. 

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