Visão do estrategista: tempestade versus oportunidades

Visão do Estrategista

Com o desempenho positivo de 6% do Ibovespa em março e a alta verificada nas primeiras semanas de abril, finalmente a bolsa brasileira recuperou as perdas do ano e passou a performar positivamente.

Esse movimento foi puxado, especialmente, pela boa performance das principais economias globais. Porém, contrasta com um cenário doméstico em que há riscos fiscais, fluxo negativo de investimentos estrangeiros entre fevereiro e março e um dos piores momentos da pandemia no Brasil.

Essa tempestade resultou em aumento considerável dos juros futuros, mas assimetrias no mercado também geram oportunidades específicas. Na renda variável, há determinadas empresas com bons fundamentos e potencial de upside relevante nos segmentos de commodities, bancos, serviços e varejo, além de fundos imobiliários com boas teses e gestão. Já no mercado de renda fixa, encontramos títulos atrelados à inflação, pré-fixados e CDBs que já refletem a alta dos juros.

Cenário Internacional

A economia mundial está se recuperando dos efeitos da pandemia. O Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou o crescimento global para 6% em 2021 e 4,4% em 2022.

Dessa forma, nos próximos trimestres teremos as maiores taxas anuais de crescimento dos últimos 50 anos, puxadas pelas principais economias, até porque a comparação será com um ano de forte recessão.

Em paralelo, ainda vemos pesados estímulos fiscais nos Estados Unidos. Além dos pacotes já aprovados, deve haver discussão sobre um pacote de infraestrutura de US$ 3 trilhões e política acomodatícia do Banco Central Americano, o FED. Apesar de ter caráter temporário, provavelmente haverá uma “briga” entre o FED e o  mercado, com juros americanos tendendo a subir de uma forma mais lenta.

Estamos analisando ainda com atenção o fato do dividend yield do S&P 500 estar muito próximo dos juros futuros pagos pelo tesouro americano.

Na vacinação em massa, os Estados Unidos já superam a marca de 25% totalmente imunizados.

Em consoante, a Europa aumentou as projeções de crescimento, com o Purchasing Managers’ Index (PMI). Isto é, o índice da atividade econômica, superando as expectativas de mercado nos últimos três meses. O Reino Unido tende a ter uma aceleração de crescimento nos próximos meses, em especial pelo avanço da vacinação (superou a marca de 15% totalmente imunizados), além da reabertura de da economia do país.

A tendência é que a China, mais adiantada na recuperação pós-pandemia, “surfe a onda de commodities no crescimento mundial”, já tendo apresentado um crescimento trimestral de 18,3%.

Há ainda a tendência de aumento da inflação global, acelerando fortemente nos próximos meses, em virtude tanto da base de comparação ser o ano de pandemia quanto pela pressão inflacionária devido ao ciclo de commodities.

Por fim, a alta liquidez global decorrente de políticas frouxas de Bancos Centrais em todo o mundo gerou uma migração de mercados mais consolidados para mercados emergentes. Assim, os fundos de ações G.E.M. (Global Emerging Markets), ou seja, de mercados emergentes, captaram US$ 37 bilhões em 2021, o maior volume desde 2017 para o mesmo período.

Cenário doméstico

Apesar de ter zerado as perdas, o desempenho do Ibovespa é um dos piores entre os mercados emergentes.

Os juros futuros DI 2020, com retorno entre 6,5% em janeiro, agora estão em 9,5%, refletindo um combo que chamamos de “tempestade perfeita”, composto pelo recrudescimento da pandemia, restrição fiscal estrutural e alta da inflação.

No entanto, o BTG Pactual possui a visão de que a Selic deve terminar 2021 em torno de 5,5% e chegar a 6,5% ao final de 2022.

Na política fiscal, o orçamento aprovado pelo Congresso há três semanas está repleto de incertezas, especialmente porque ao longo do caminho até a construção de uma solução ventilou-se ideias que poderiam abrir grandes riscos e despesas. Entre elas, a flexibilização do Teto de Gastos.

Apesar disso, há expectativa de haver acordos entre o Executivo e o Congresso, evitando um shutdown. Isto é, a paralisação do governo, e a tendência de edição de novos créditos suplementares a fim de financiar programas de ajuda empresarial. Em destaque, o BEM e o Pronamp, ao custo de cerca de R$ 15 bilhões.

Vale ressaltar que essas questões formalmente não desrespeitam a regra do teto, mas aumentam o problema fiscal.

Contudo, as incertezas corroboraram para um quadro em que, a despeito do fluxo de investimentos estrangeiros para mercados emergentes, o Brasil parece estar fora da festa.

Ou seja, o que sustentou a alta do Ibovespa tem sido predominantemente o investidor nacional. Assim, abre-se caminho para a possibilidade de, se fizermos o dever de casa, termos rally (alta) no mercado acionário com a volta de capital estrangeiro.

Vale salientar que a agenda de reformas foi paralisada temporariamente em virtude da pandemia: os parlamentares voltaram a produção legislativa para matérias relacionadas ao tema. Contudo, mantemos nosso call de perspectiva favorável em relação à reforma administrativa, e negativo quanto à possibilidade de uma reforma tributária ampla.

Já projetos regulatórios, como a lei da cabotagem, a MP do Ambiente de Negócios e a MP da Eletrobras, devem prosperar. E, com a resolução dos vetos do orçamento, o mercado deve voltar a tirar essa incerteza do radar e voltar as atenções para a agenda de reformas.

Na vacinação em massa, o total de imunizados no Brasil está em 4,3%, mas há perspectivas favoráveis para maio e junho em virtude da expectativa de chegada de insumos e vacinas. Há ainda perspectiva de maior viabilização logística para algumas regiões do país, onde até o momento a vacinação ainda está em fase incipiente.

Alocação de recursos

Não houve mudanças estruturais na alocação de recursos. 

Nas últimas semanas, estamos orientando maior posição em fundos que destinam os recursos em renda variável na bolsa americana, dolarizando mais o patrimônio.

A temporada de balanços começará nos próximos dias, e temos boas expectativas sobre os resultados e a lucratividade de empresas tanto da velha quanto da nova economia.

Enxergamos o momento ainda para aumentar a exposição em fundos imobiliários, que não recuperaram ainda os patamares pré-covid, resultando em oportunidade. Endossamos que o Ibovespa ainda está barato em dólar.

Mantemos atenção em oportunidades em títulos com juros curtos pré-fixados, além de IPCA. No último mês, vimos títulos bancários pré-fixados para seis anos remunerando quase 13% ao ano, um prêmio muito acima das taxas de juros negociadas no mercado para este prazo.

Houve ainda para clientes de perfil mais conservador, a troca do ouro pelo dólar para hedge, e no caso de perfis mais arrojados, entre 1,5% e 3% em fundos de criptomoedas.

Disclaimers

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